9.12.14


x mudou-se para a Mouraria há muitos anos. há 10? ou seria 11? 12? x já não se lembra muito bem, mas x viveu na Mouraria durante bastante tempo, embora dividido em dois períodos distintos: aM e dM - antes de Moçambique e depois de Moçambique. o período aM durou uns 3 anos (ou mais ou menos). o período dM, terá durado uns 2 anos (ou mais ou menos). depois, x desceu para o Intendente, mas manteve-se perto das rotinas de sempre. uma delas passava pela visita ao Mercado do Forno do Tijolo ao fim de semana. o roteiro incluia a banca dos legumes da senhora de Arcos de Valdevez (ou será Ponte de Lima?), o talho, a queijaria e a padaria (onde havia uns bolinhos que x tinha de levar para o pequeno almoço tardio de sábado). o mercado não era bom, mas era o que havia. depois foi morrendo todos os dias mais um bocadinho. a queijaria fechou. a padaria fechou. as bancas diminuiram. o talho, porém, manteve-se. e x continuou a lá ir. hoje é recebida como uma cliente quase especial. é no balcão do talho do mercado que x vai sabendo os segredos da rua. os amores e desamores de uns e outros. as quezilias. as curiosidades. quem vai e quem fica. os senhores do talho sabem onde x mora e, quase sempre, acompanham x à porta de casa para carregar os sacos. coisas do bairro. ao longo dos anos, o mercado morreu aos poucos. mas, talvez fruto do movimento frenético de revitalização do Intendente, o mercado tem vindo a renascer. começou por abrir um fablab. depois houve eventos interculturais pontais. depois vieram as obras. e agora há novas lojas a abrir. dizem que querem abrir tasquinhas, como em Campo de Ourique ou na Ribeira. x não sabe se é verdade, mas x sabe que há vida no bairro. e gente nova. e ideias. e crianças. e flores. e vizinhos que se conhecem. e o sr. Armindo da frutaria, o Ruben do restaurante, a Cláudia do cabeleireiro, as Joanas do café, os nepaleses da mercearia, o indiano da tabacaria, os brasileiros da churrasqueira, e tanta gente que faz da cidade um sítio vivo. x foi feliz na Mouraria. e x espera ser ainda mais feliz no Intendente. x não se arrepende de ter optado por ficar numa zona da cidade em que ninguém acreditava. nada é imutável. tudo se transforma. nos espaços. e nas pessoas também. por isso, a única verdade é o caminho. mesmo quando sabemos o que nos espera no fim.

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