10.9.11

Do I contradict myself?
Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)

Walt Whitman
v

era. pretérito. e imperfeito.
IMG_6242

X não é nada alta. mas com 10 cm a mais já fica com a cabeça acima de grande parte das pessoas com quem se cruza no elevador durante o dia. X tem vindo a constatar alguns fenómenos: os homens com quem se cruza no elevador do alto dos seus saltos (i) são mais simpáticos do que o costume, (ii) mas, logo depois, baixam a cabeça e olham para os seu próprios pés, (iii) e tratam X por "você" ou "senhora".

9.9.11

e hoje X está assim a modos que supercalifragilisticexpialidocious

("You know you can say it backwards, which is 'dociousaliexpilisticfragicalirepus', but that's going a bit to far, don't you think?" Mary Poppins)

8.9.11

morar em frente, mas mesmo em frente, a um hotel tem o seu quê. por uma lado, podemos chegar a casa a desoras e, quase sempre, ter estacionamento livre à porta. e problemas de segurança quase que não existem. sobretudo considerando que, no caso concreto, o recepcionista está quase sempre à porta a falar ao telefone lá para os lados do Bangladesh. por outro, há coisas assim um bocadinho mais difíceis de gerir. por exemplo, depois de estar a trabalhar madrugada fora, ir fumar para a varanda e ver uma janela de um quarto ostensivamente aberta, onde um casal está fazer alguma coisa (que, no caso concreto nem sequer dava bem para perceber o que era, embora X, ainda assim, consiga fazer uma ideia muito próxima). e isso nem sequer é mau. mau mesmo mau é ter de levar com a Celine Dion como banda sonora.
durante o dia, X fala uma língua qualquer que, por vezes, não se percebe muito bem qual é. nos últimos minutos foi mais ou menos assim "já acabaste os customs? deixamos as migratory offences? foda-se, quero lá saber do raio das offenses. product liability? counterfeit products? mas estes gajos pensam que estão onde? se existe stock exchange no antigo Zaire? lol!!! lol!!! lol!!! dah! não te esqueças do forex. os tax returns! fuck, esqueci-me, dessa merda. ai... como se chama aquela treta maningue esquisita a que dão o nome de clearance qualquer coisa doc.? paralell trade? lol!!! lol!!! lol!!! dizes-me as exemptions do Botswana dizes? foda-se! café? café? café? não posso, não posso, não posso. ai foda-se outra vez. reunião? já são horas? quem tá a tratar do seysmic? ah bom, o farm out tá em stand by? este matter tá a andar? cool. ai foda-se que me esqueci do pequeno almoço. e do lanche da manhã. tenho de comprar tabaco. caray de paraguay que tou farta disto até à moleirinha! almoçar? ok ok going down!". e isto não tem interesse nenhum. mas a vida de X tem muitas coisas que não interessam quase nada, embora a impeçam de, em tempo útil, ir, por exemplo, levantar o cartão do cidadão que aguarda pacientemente algures há que tempos. e de trocar uma lâmpada dos médios do carro que logo havia de ter fundido mesmo antes da inspecção. o carro passou. X tem um ar entre o simpático e o "não me lixes senão mordo-te." às vezes, dá jeito.
e X chegou a casa já muito tarde e viu um rapaz giro mesmo giro à sua porta. X parou a meio da escada, olhou com um ar entre o indignado e surpreso e pensou "mas quem é este? e o que faz aqui?". X está cansada. mas não reconhecer o irmão à primeira parece-lhe um sintoma bastante grave. X trazia coisas para acabar em casa. mas depois disto mudou de ideias.

7.9.11

(... and yet, despite the half crazy stuff, she is an awfully ordinary girl.)
(aviso: X escreve mais depressa do que pensa. e, normalmente, não pensa no que escreve. sai-lhe. normalmente, também, não lê o que escreveu. faz só "publish post". para além disso X é, também, assim um bocadinho disléxica. e, às vezes, se quer escrever, por exemplo, "maresia" sai-lhe "remasia" ou "siamare" ou outra qualquer coisa do género. às vezes, também troca acentos. ou então não os põe de todo. e também tem dias que inventa palavras. quando essas palavras dizem exactamente o que X quer dizer. e tem alguns vícios de África. e outros tantos vícios anglófonos, já que passa o dia a escrever numa língua que não é sua. X escreve muitas vezes sobre coisas simples, ou então meio estranhas, no meio de outros processos ainda mais estranhos. e é por isso que, muitas vezes, X corrige os seus próprios erros ortográficos. quando os encontra, pelo menos. ou então, quando lhe dá para isso porque não tem mais nada de importante para fazer. no entanto, as palavras que, às vezes, inventa, não as corrige. porque dizem exactamente o que X quer dizer. X, amiúde, também não gosta de vírgulas nem de pontos. mas isso é, sobretudo, quando o que escreve resulta do que lhe corre sem freios por dentro da cabeça. sim, X, às vezes, escreve palavras com erros e frases sem regras sem ter grandes preocupações com isso. e é isto.)

6.9.11

escrevi as minhas primeiras palavras com mais ou menos quatro anos. mas aquilo cansava-me e pedia sempre à educadora que me deixasse identificar os meus trabalhos com símbolos. como os outros meninos faziam. queria sempre desenhar o sol. parecia-me a coisa mais distante e enigmática que estava ao alcance dos meus olhos. ela nunca me deixava. e obrigava-me a escrever o meu nome em letras ainda meio toscas. achava aqueles miúdos todos bastante chatos. alguns choravam muito. e tinham medo de levar vacinas. e da professora. e das contínuas. e dos outros meninos também. nunca gostei de gente com medo. talvez por isso, não me lembro de ninguém. na escola primária aborrecia-me de morte ter de esperar que os outros percebessem as coisas. fazer riscos e bolas tentando desenhar letras parecia-me bastante básico. tinha uma grande amiga. desses tempos, só me lembro de mais um miúdo, que era completamente idiota. e que me perseguia todos os dias no fim das aulas. e berrava "X eu gosto de ti". eu detestava-o com todas as forças das minhas entranhas ainda muito pequenitas. na terceira classe mudei de escola. não gostei. nessa a professora batia com uma régua. a mim nunca me bateu, mas aquilo parecia-me sempre bastante bárbaro. e sempre injusto. tinha uma grande amiga que desapareceu de um dia para o outro porque os pais mudaram de cidade. os outros pareciam-me quase todos bastante parvos. na preparatória tudo me parecia relativamente simples. fiz alguns quase grandes amigos. mas que rapidamente deixaram de o ser. apesar de não ser uma mente excepcionalmente brilhante, fui a melhor aluna da escola. por causa disso ganhei a minha primeira viagem quase sozinha a um país no meio da europa no âmbito de um intercambio escolar. foi a primeira vez que estive sozinha. e que o mundo me pareceu enorme. e que percebi que é possível comunicar sem palavras. fiz 12 anos longe da minha família e festejei-os no meio de uma família que não era minha mas que me acolheu como se fizesse parte. cantaram-me os parabéns em alemão. eu não percebi nada. mas gostei. e senti-me parte de um mundo gigante que antes desconhecia. no secundário mudei novamente de escola. e fui aterrar no meio de um edifício frio e gigante. quase desumano. suponho que nessas idades é normal ser meio parvo. mas eu achava que a grande maioria era mais parva do que seria admissível. tinha vários conhecidos. fiz uma amiga. nunca mais a vi. na altura tinha um pseudo-qualquer-coisa-não-sei-bem-o-quê-mas-que-diziam-que-se-calhar-era-meu-namorado a quem um dia disse "hoje não me apetece estar contigo porque quero acabar de ler Os Maias". acho que me lançou um quebranto e que ainda hoje me odeia. ou não. não percebo muito bem. no fim do secundário decidi: vou deixar tudo e vou estudar para longe. fui. e foi nesse percurso que encontrei um pequeno grupo de pessoas que (a grande maioria) ainda hoje me acompanham. tive alguns pseudo-qualquer-coisa-não-sei-bem-o-quê-mas-que-definitivamente-nunca-foram-meus-namorados-graças-a-deus. nunca lhes dei importância nenhuma. mas estive no meio de uma história de terror, também. há alguns anos decidi dar um pontapé na vida e deixar quase tudo outra vez. fui para longe. fiz alguns grandes amigos. e comprovei que apesar de o mundo ser enorme é bem mais pequeno do que parece. e que os afectos não têm fronteiras nem dias nem horas nem cores nem quase nada que os impeçam de ser, desde que sejam, sem terem outras razões para ser que não o serem em si mesmos. incondicionais. e intemporais. acho que sempre quis ir onde não sabia. que por isso sempre fui desligada. algo distante e ausente. talvez até tenha sido sempre bastante anti-social. mas sabia exactamente o que queria. e por isso há hoje um punhado de pessoas de quem gosto muito e que são a minha vida toda. são os que ainda me acompanham. a eles, obrigada pela paciência. e por sonharem comigo. e por não se renderem. e por serem como são. e por me deixarem a mim ser como me apetece ser.
há dias deu-me assim uma vontade de fazer mais um piercing. ou uma tatuagem (na verdade não tenho nenhuma, nem nunca me deu para isso). mas respirei fundo e pensei "oh X deves andar mesmo muito aborrecida!". entretanto saí com umas pessoas que já não via há anos. essas pessoas trouxeram um casal amigo: ela faz piercings, ele é tatuador. e há quem diga que deus não tem sentido de humor!


(decidi, no entanto, que tatuagens não faço - as coisas perenes atrofiam-me. como os móveis sempre no mesmo sítio. ou as cores que não mudam.)
e hoje X está com ar de Minnie e feitio de Maga Patalógica.

(beware, beware, do not be fooled by her looks. she's as naugthy as only a kinky witch can be.)
uso com tanta frequência a palavra detesto como a palavra gosto. definitivamente não sou pessoa de cinzentos. nem de tons beije. sou assumidamente exagerada nas opções. ou tudo ou nada. assim-assim é que não.



The Cure - Lullaby
IMG_4532

promete-me só um dia de cada vez. promete-me que no dia seguinte começará tudo de novo.

5.9.11

como se chama aquela coisa que nos envolve pela cintura e aperta aperta aperta aperta mas que em vez de doer nos faz cócegas?

4.9.11

foi no dia que senti essas mãos frias e transparentes querendo roubar-me o ar que me tornei um monstro. esse paternalismo covarde foi o acelerador. a sobrevivência fez o resto. e ainda assim todos ficamos a ganhar. apesar de tudo, o mundo equilibra-se. e não digas que estás contente. porque isso afinal não quer dizer nada. fica só em silêncio. e longe.

confesso que ela faz-me ter vontade de lhe arrancar um pedaço com os dentes

Anna Calvi

13 de setembro, Lux
bom dia mundo!
bom dia mundo!
bom dia mundo!
bom dia mundo!
bom dia mundo!
IMG_6165

Anna Calvi - Desire

Those who restrain desire, do so because theirs is weak enough to be restrained.

William Blake
P1080578_2

quero tudo, ainda que o meu tudo não seja muito, mas quero tudo, menos do que isso recuso

3.9.11

IMG_6295

e às vezes acordo com o diabo colado ao corpo dizendo-me ao ouvido "vende-me a tua alma e ofereço-te o mundo". e ele sabe que sem alma o mundo me interessa muito pouco. mas insiste, e insiste e insiste.

Lau Nau - Painovoimaa, valoa

porque me parece uma boa forma de terminar esta semana. ou simplesmente porque me apetece adormecer ao som disto. ainda que queira acordar sem isto na cabeça.

2.9.11

ele, ela, ele e ela, ou ela e ela, ou ele e ele, ou elas e elas, ou eles e eles, ou eles e elas todos ao molho, eles (em qualquer uma das variantes) dizendo nós, um império, fora sempre assim e deus podia dormir descansado.
destesto coisas banais. mas gosto muito de coisas simples. e daquelas pequenas rotinas que o são sem se dar conta.
e, apesar de tudo, acordei tão cheia por dentro que corro o risco de explodir num fogo de artifício cheio de cores. nunca saberemos o amanhã, por isso mais vale aproveitar o já. e por isso decidi libertar alguns fantasmas. sejam felizes no vosso inferno. o meu está quase quase no fim. ontem também comprei girassóis.

1.9.11

IMG_6262

e esta é uma prova de que há momentos na vida em que, vindo sabe-se lá de onde, nos aparece à frente, como que por magia, exactamente aquilo que procuramos durante tempo que parece infinito. e que, frequentemente, o que tanto procuramos acaba por nos aparecer nos sítios mais insuspeitos. amiúde em situações muito pouco prováveis. as mais das vezes, mesmo até no meio daqueles momentos mais difíceis que nos vão corroendo um bocadinho mais por dentro. neste caso foi na loja do Adolfo Dominguez no Saldanha. sítio esse que na cabeça de X em situação alguma faria sentido entrar. no momento em concreto, X estava ainda com o estômago revolto. e bastante mais angustiada do que o normal. mas há pequenos momentos que não nos é permitido perder. por nos virem, de algum modo, preencher as ânsias de sempre. mas para isso há que cuidar que os olhos não fiquem toldados com os cinzentos que nos acompanham, sob pena de não olharmos a montra e perdermos a oportunidade de, enquanto se faz um plim por dentro, dizermos: é exactamente isto que procuro há anos! (hoje, em especial, este post até pode parecer bastante estúpido. mas acreditem que talvez seja dos mais sérios que escrevi desde que comecei este blog.)

31.8.11

pronto... e agora tenho de vestir a pele da pessoa séria que também sou e dedicar as próximas horas a cogitar intensamente acerca de uma cena a que em estrangeiro se chama historical environmental liabilities embora hoje tenha acordado com o diabo por dentro que não pára de me dizer fuck it and go to Paris, drink red wine and write a book in blood red ink. (foda-se que às vezes juro que tenho medo do que me passa pela cabeça)
não gosto de palavras entre aspas. gosto de palavras cruas. directas. mortais.
às vezes tenho a sensação que se abusa em demasia da palavra saudade. eu saudade não sinto. o que sinto algumas vezes é que me arrancam o coração e me deixam ali um buraco enorme no peito. mas saudade isso não é. pelo menos não é a saudade dos comuns.
lembro-me da sensação de abandono. não sei se do mundo em relação a mim se de mim em relação ao mundo. mas lembro-me da sensação de abandono. e da ofegante necessidade de encontrar algo a que agarrar as mãos. mas uma espécie de nevoeiro denso ocupava tudo em volta. ainda assim, lembro-me também de conseguir ver através. mesmo sem conseguir ver nada no pequeno círculo em volta. e os sons. e as vozes. as vozes que se não calavam. e os gritos que às vezes saíam calados mas sempre em forma de estilhaços afiados. e a agonia. a agonia de ter de largar o que parecia ser tudo. e aquela sombra sempre presente dizendo "deixa-te morrer, deixa-te morrer, deixa-te morrer". às vezes a luz é tão escura como as trevas. sabiam?
tenho vindo a constatar que, apesar de tudo, há pessoas que estão melhor mal acompanhadas do que sozinhas. saber estar só é quase uma arte. saber aguardar por boas companhias, por seu turno, é uma espécie de rasgo de génio. definitivamente, não é para qualquer um.
um dia (há muitos muitos muitos anos) alguém me disse "espero que não te arrependas". eu não me arrependi, mas tive várias dúvidas ao longo do percurso. e já houve casos em que eu própria tive vontade de dizer "espero que não te arrependas" a uma ou outra pessoa. nunca disse. em alguns casos porque não havia grande utilidade. já noutros porque secretamente desejei (e em alguns, embora muito muito muito poucos, ainda desejo) que se arrependam à séria e batam com a cabeça num muro de pedra até esguichar sangue. sim, às vezes também sou um bocadinho má.

30.8.11

e por momentos voltei ao mundo da Alice, e por momentos senti alguém agarrar-me a mão, e por momentos pareceu-me ver dois pés começar a descolar-se do chão. não tenhas medo, voar é fácil

28.8.11

IMG_6252

e depois de Nietzsche no Fábulas apareceu alguém que faz sempre X ter vontade de rir e a tarde acabou na Gardénia de onde X saiu com quase 10 cm a mais e pronta a enfrentar a insanidade que os próximos meses prometem. mas X também trouxe dois livros de poesia da Fnac. é que só assim X conseguirá manter o equilíbrio em cima daqueles saltos.

acordei com vontade de ler Schopenhauer. devo ter dormido com os pés de fora. vou pegar no Nietzsche e vou para uma esplanada qualquer. fica assim a meio. e pode ser que a vontade de Schopenhauer me passe. e que amanhã continue a achar que o mundo e as gentes são dignos de esperança. é que eu acredito. ainda que às vezes se me acometam dúvidas várias.
IMG_6205

a verdade é que não suporto que me tirem fotos. detesto máquinas de outros apontadas a mim. se calhar porque detesto que me vejam. ou que me fixem numa imagem. detesto coisas cristalizadas. mas não é só por isso que fujo das câmaras. é mesmo pânico do palco. da mesma forma que detesto falar em público. ou atender o telefone a números desconhecidos. ou anónimos. e detesto ter público enquanto estou com a minha câmara. é como se fosse um jogo só meu. e não consigo tirar fotos com ruído. nem com gente ao lado. mas gosto de fotografar pessoas. sobretudo pessoas. gosto de apanhar emoções. mas é-me difícil fazê-lo. porque penso sempre que do outro lado pode estar alguém como eu. e porque tenho a certeza que a imagem não é real quando alguém nos aponta uma câmara. e eu gosto sobretudo de coisas com verdade. o cinismo agonia-me. a mentira também. mesmo que seja em forma de imagem.

27.8.11

P1080574_2


Johann Johannson - Sun's go dim

26.8.11

IMG_6152

pegaste-me a loucura mas essa não me podes vir pedir de volta e isto é uma forma de dizer que já não há mãos a mexer por dentro e que as palavras já não saem salpicadas a vermelho

Mogwai - Acid food

havia algumas estrelas e algumas nuvens e alguma relva ainda e eu tinha os pés descalços colados à terra mas quase sempre vi de cima como vêem os anjos e hoje acompanharam-me na volta e algures a sul ficou um pouco mais do que ainda resta e isso foi bom porque às vezes temos de deixar para trás quem tem de ficar para trás mesmo que isso nos deixe um bocadinho mais vazios
Não é meu hábito recomendar livros. Até porque os livros que me interessam, normalmente, não interessam muito a muita gente. De qualquer modo, este livro - do qual, apesar de tudo, ainda não sei se gostei ou não - foi uma surpresa. Não tanto pelo conteúdo, mas antes pelo autor. Não consigo encontrar uma palavra para o definir. Mas não conseguia parar de o ler. Cheguei à conclusão que, apesar de fazer parte de um governo no qual não me revejo nem um bocadinho, o nosso ministro da economia é o tipo de louco ao qual eu acho piada.
1691 km depois em que fiz algumas das coisas que mais gozo me dá - conduzir sem destino, enfiar os pés na areia numa praia às escuras e ler dias a fio - voltei com uma cor dourada.

15.8.11

e ontem X acordou muito cedo, foi à rua, comprou fruta e tabaco, tomou café, voltou a casa, deu comida à gata, ligou a música - escolheu punk-rock de adolescente - e limpou a casa - pela primeira vez desde há muito com vontade de limpar a casa - e saltou e pulou enquanto lavava a loiça e outras coisas assim. pelo meio X ia arrumando a mochila, pegando no material de campismo, o micro-mini-fogão, a lanterna, o saco cama, X não pode esquecer-se do saco cama, champô, protector solar, cremes, aquele perfume, X não vive sem aquele perfume, e roupa? que roupa levar? não ténis não. só havaianas. os anéis, os anéis não podem ficar esquecidos. e o colar que se abana e chama anjos. esse também não. mas será possível que X só tem dois biquinis de jeito? e o secador de cabelo, X não pode sair sem o secador de cabelo. e a geleira e os copos para o gin... sim, agora X acha que está tudo! X mete-se no carro, liga a música, faz uma viagem de mais ou menos 400 km só com Mogwai, alguns temas ouve até ao limite do repeat, chega ao destino, abre a mala do carro e: X sabe que anda com a cabeça meio no ar mas logo o raio da tenda é que tinha de ter ficado em Lisboa?

13.8.11

Acordei com vontade de ouvir isto. Tenho para mim que é por causa daquele berro inicial que é igualzinho ao que me apetecia dar agora. Para além disso a Wendy James sempre me deixou dúvidas.

X acordou com isto enviado por alguém lá do outro lado do mundo.

12.8.11

estou muito, muito, muito cansada, mas feliz, ainda que a minha insanidade continue amanhã.

11.8.11

tem-me dado para pensar acerca do papel das pessoas que vão cruzando connosco. tem-me dado para pensar na forma como as vidas se fazem em teias. também me tem dado para pensar nos maus resultados que às vezes isso dá. mas, ainda assim, o que realmente me tem incomodado nesta questão é perceber que, no limite, temos sempre como mais importante o efeito das coisas em nós do que nos outros. e isso é profundamente egoísta. por outro lado, somos quase sempre tão previsíveis. até na inconstância. e, quando tudo nos parece tão incrivelmente novo, o resto, amiúde, passa a ter menor significado. e isso é também bastante estúpido. é que, às vezes, as coisas explodem. e quando há explosões, há quase sempre danos colaterais. ou seja, a vida é uma espécie de equação, e os desvios de cálculo - ainda que mais ou menos voluntários - levam-nos a enveredar por caminhos - às vezes, até profundamente errados - que, no lado mau da hipótese, terão influência decisiva em resultados alheios. e, às vezes, isso parece ser de importância menor. e é exactamente aqui que não consigo decidir se isso é bom ou não. é que, quando alguém diz eureka, outro alguém fica profundamente ferido. mas isso, quase sempre, é problema do outro alguém. e é este pormenor que é uma grande filha da putisse. pecado esse de que eu, apesar de tudo, também não estou isenta.
preciso desesperadamente de cores primárias. mas onde me sinto bem é no lilás quase pálido. não sei bem se isto é uma contradição ou se é uma forma sábia de viver no todo. tenho de voltar ao Goethe, que ficou esquecido num momento de raiva.
em tempos disse a alguém que precisava de aprender a andar em terra. enganei-me. gente como nós andará sempre sobre a água.

10.8.11

hoje tenho um dragão a queimar-me por dentro e uma corrente de ar na cabeça que me impede de pensar