16.9.11


Peter Broderick - And it's alright

12 de Novembro, Musicbox

(e eu continuo a perguntar quem no seu perfeito juízo acha que o Musicbox é um bom sítio para qualquer tipo de concerto. enfim...)
(X explica: X dorme pouco. normalmente umas 5 horas, 6 no máximo, muitas vezes só 4 ou, nos dias mesmo maus, não mais de 3. por razões profissionais, X está grande parte do dia em frente a um pc. X tem um trabalho giro. mas às vezes é meio aborrecido também. seja como for, é demasiado sério. sempre. e X precisa de coisas mais sonho, mais nuvens, mais branco. X tem muitas cabeças. todas dentro da mesma. cada uma vai exigindo o seu momento. e, por isso, X divide-se com muita frequência ao longo do dia entre coisas absolutamente díspares. quando esteve longe, X ganhou um hábito que ainda não conseguiu perder - tem de estar sempre ligada: o gmail está sempre aberto, o skype está sempre ligado, o facebook também e o blog tem sempre a página "new post" em stand by. e X nem sequer passa tempo com pessoas virtuais. nem usa o msn. nem costuma conhecer pessoas que, por qualquer razão, encontra online. nem sequer fala ao telefone sem que tenha alguma razão importante para isso. X é até algo anti-social, mas tem de estar sempre ligada. mesmo fora de casa - o telefone está (quase) sempre ligado e, por razões profissionais, está sempre sicronizado com o outlook e sempre com acesso à net (menos ao fim de semana que é quando X quase sempre o ignora.) por isso, sempre que alguma coisa a transporta para algures sabe-se lá onde, X pára. e regista. e, por isso, é que este lugar, às vezes é tão activo. ou diz coisas tão diferentes. X é muitas. pronto. às vezes, X regista só com a camara fotográfica. as imagens que capta são (quase) sempre resultado do imediato. e não pensadas. são apenas resultado de um instante qualquer. X não passa mais do que alguns minutos por semana com a camara na mão - não tem tempo para mais. nos entretantos, vai tentando ter uma vida, também. mas, às vezes, não consegue. quando tem tempo, X prefere espaços abertos. com ar, luz e sol. X ganhou uma espécie de fobia a espaços fechados. e, por isso, durante muito tempo custou-lhe entrar em salas de cinema. mas agora essa fase já está a passar. mas X gosta, sobretudo, de sítios que cheirem muito a livros. embora tenha muito pouco tempo disponível para lhes dedicar. ao fim do dia, a cama é o seu mundo. do lado direito tem os livros que se vão acumulando, do esquerdo a camara fotográfica, aos pés o mac (sempre, mas sempre, ligado - sim a bateria já pifou). X não costuma ver televisão. não lhe perguntem nada daquelas séries que toda a gente da idade de X vê. já a cama de X é uma espécie de caos. e se um livro anda perdido, o mais certo é estar escondido nos lençois. e os fones. e alguns cds também. X não consegue ouvir a música que realmente gosta sem ser sozinha. e com tudo à volta em silêncio. de preferência, com os fones postos. e deitada na cama, ou no sofá, ou no chão. X faz muitas coisas ao mesmo tempo. mas não tem tempo para tudo. e, por isso, às vezes, passa demasiado tempo longe do mundo da rua. e, às vezes, até longe dos amigos de sempre. mas eles já sabem como X é. e sabem que X volta sempre. porque na realidade nunca está longe. X está sempre ligada. e quando está em carne e osso está mesmo de verdade. X não finge. nem no blog, nem lá fora.)
(...) something within me... wants to break free... I swear, Master, to eternally adore the two goddesses; Muse and Liberty.

Carta a Théodore de Banville, maio, 1870 - Arthur Rimbaud
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tive de me organizar. em não havendo critério teve de se inventar um: física no monte da esquerda, teosofia no do meio e poesia logo à direita - bem ao alcance da mão. estou quase a chegar ao Manjit Kumar. é só despachar as últimas páginas do Michio Kaku. e começar e acabar o Paul Davies. o Rilke está a olhar de esguelha mas hoje é o Rimbaud o escolhido para partilhar comigo a cama. oh tempo, cresce!

15.9.11

há já alguns anos, X tinha uma vida diferente. em um dos episódios bonitos dessa vida, X conviveu com algumas pessoas muito interessantes. X era assim ainda pequenita e novinha e, um dia, numa missão de trabalho, viu-se dentro de um autocarro no meio dos grandes nomes do jornalismo ligado à gastronomia e à cultura nacional. X sentiu-se um micróbio. mas o chefe de X à altura, que era louco, vá-se lá saber porquê, levantou-se, abriu os braços e berrou - "descobri uma grande jornalista"- X, portanto. ora X nunca foi jornalista, mas quando era pequenina dizia que queria ser. e pronto, lá foi calhar ao meio, sem saber muito bem como. mas essa parte da história não interessa nada. o que interessa é que X nesse momento, e por acaso (e os acasos não existem, já agora, mas no momento não me ocorre melhor expressão) estava sentada mesmo ao lado de um senhor, assim já com alguma idade, que X não conhecia de lado nenhum mas com quem simpatizou desde o primeiro segundo. esse senhor, por causa das palavras do ex-chefe louco, começou a falar com X. X já não se recorda da conversa toda, mas sabe que durou a viagem inteira. e que falaram muito de cinema - X veio depois a perceber que o senhor até fazia crítica de cinema num jornal do norte, embora nunca tenha lido nada do que ele escrevia acerca do assunto. de qualquer modo, X sentiu-se meio ignorante porque de cinema não percebia assim tanto como isso, embora na altura até passasse bastante tempo no King e no Quarteto. e, palavra puxa palavra, no fim da viagem X e o senhor simpático trocaram contactos. e o senhor prometeu que escrevia. e escreveu. passados uns dias, X recebeu uma carta acompanhada de uma garrafa de vinho da Ilha do Fogo - o senhor também era crítico de vinhos. e durante algum tempo X e o senhor trocaram algumas mensagens. hoje, X voltou à caixa de correio antiga e reencontrou-as. falavam, sobretudo de filmes que ambos tinham visto - trocavam opiniões, na altura, por exemplo, sobre o Mystic River que nas palavras dele era "belo e corajoso". e falavam de escrever. X tinha descoberto a paixão pelas palavras. e como se sentia bem quando escrevia. e como não conseguia explicar essa sensação a quem não o fazia também. não se consegue explicar o porquê de escrever. ou o porquê de escrever de determinada forma. escreve-se. pronto. X e o senhor falavam muito sobre isso. e quando X teve de mudar de vida, o senhor disse-lhe assim "X faças o que fizeres, nunca páres de escrever. escreve sobre tudo e em qualquer lugar, mas escreve, escreve, escreve...". estas foram as últimas palavras que X leu do senhor. entretanto os destinos descruzaram-se. até hoje, dia em que X recordou esses tempos tão intensos. e essa amizade que durou tão pouco mas foi tão bonita. hoje, depois de reencontrar essas mensagens, X foi procurar saber o que teria acontecido ao senhor simpático que encontrou numa viagem algures no Douro. José Gomes Bandeira faleceu em 2006. era jornalista do JN mas, para além disso, era um ser humano incrível. X verteu duas lágrimas.
sinto-me no meio de um triângulo. e juro que não sei o porquê. mas sinto-me no meio de um triângulo. e eu não lhe vejo as esquinas, mas sinto-me no meio de um triângulo.
e, ainda assim, não deixa de ser irónico que desde manhã cedo X esteja dedicada a coisas que têm a ver com substâncias explosivas e radioactivas... é que X está assim desde que acordou - prestes a rebentar qualquer coisa!
e às vezes também escrevo sobre sexo. embora só muito vagamente me interesse escrever sobre sexo. concluo, portanto, que sou mais Anais Nin do que Henry Miller. (ainda bem, o Henry Miller é mau que dói.) gosto da subtileza. é isso, gosto da subtileza. ainda que esta venha enrrolada em lençois suados ou esquinas escuras. na verdade, não me interessa particularmente escrever sobre sexo. interessa-me mais o antes. ou o depois. mas, às vezes, também escrevo sobre sexo. ainda que seja mais Anais Nin do que Henry Miller.

é algo curioso ficar sem telefone, perder todos os contactos e pedir que os mandem de novo, quando acordamos pela manhã e abrimos o email, as muitas de respostas que recebemos de imediato são quase todas daquelas pessoas de mesmo muito longe. a proximidade às vezes mata. a distância por vezes conserva. mas nenhuma destas versões .
"pega em duas tripas. dá-lhes um nó. e experimenta correr descalça a seguir." com o distanciamento do hoje, posso dizer que esta foi a descrição de um sentir mais visceral, mais bonita e, também, mais cruel que me fizeram. e só me lembrei disto hoje, porque há noites com visões estranhas. mas, bom dia mundo que é e até sempre mundo que foi (embora, talvez, nunca com grande verdade).

14.9.11

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tem pose de nobre. ignora quase tudo e todos que a rodeiam. faz ar de frete se alguém a incomoda. e só fica mais ou menos empolgada quando vê latas gourmet que degusta com ares de gata fina. chama-se maria amélia, podia lá ter outro nome? sim, tem quase todos os defeitos da dona mas esta tem um nome bem mais plebeu.

13.9.11

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Some things I loved have vanished. A great many others have been given to me.

Simone de Beauvoir



"If you are only moved by colour relationships, you are missing the point. I am interested in expressing the big emotions - tragedy, ecstasy, doom"


Mark Rothko


eu tenho uma paixão desmedida pelo trabalho do Mark Rothko, pela personagem do Mark Rothko e pela profunda violência das cores do Mark Rothko. mas só trouxe este assunto agora aqui porque a experiência que eu tenho ao olhar para quase tudo o que o Mark Rothko fez é equivalente à parte minúscula que eu percebi da descrição da teoria das pontes de Einstein-Rosen.
(curiosidade: neste blog, às vezes, acontecem coisas meio estranhas. mas, ser seguido por alguém lá dos lados do oriente que está à frente de um blog ligado ao Falun Dafa (ou Falun Gong) até a X parece demasiado excêntrico. e quem não sabe o que é o Falun Dafa (e eu também não sabia) pode ver aqui. de qualquer modo, visto assim por alto, o Falun Dafa interessou a X. e X promete que vai pesquisar mais sobre o assunto. embora desconfie que a filosofia da coisa não seja muito diferente de todas as outras que X já vai reconhecendo. é que afinal de contas, todos dizem mais ou menos o mesmo. até porque o Todo é uno. digo eu.)
desde há alguns anos que X tem um ritual que cumpre religiosamente todos os dias - acorda, levanta-se, ainda com os olhos meio fechados liga o mac, vai às páginas do Expresso, TSF, Público e agora também "i". (ao Sol recusa-se pois X abomina alcoviteiras.) X não gosta particularmente de nenhum jornal português (com excepção do Económico), mas vai acompanhando - ainda que grande parte das vezes não passe do primeiro parágrafo. mas não gosta, sobretudo, de quase nenhum dos fazedores de opinião da praça quase todos comprometidos com coisas miudinhas. por isso vai também espreitar, pelo menos, o Economist, a Al Jazeera e a Foreign Policy. quase sempre depois de ler os títulos fica meio arreliada, vai direitinha tomar uma enorme chávena de café e fuma o primeiro cigarro do dia. normalmente está bem disposta. X está quase sempre bem disposta pela manhã. apesar de tudo. mas normalmente pensa, também, "foda-se que o mundo qualquer dia rebenta de vez". foi exactamente isto que aconteceu hoje. e imediatamente a seguir X pensou que se o Prozac fosse substituído por Helena Blavatsky talvez o mundo tivesse uma solução mais rápida. vá, os mais corajosos podiam aventurar-se no Rudolf Steiner. ou, quem não tiver paciência para o senhor, pelo menos podia deter-se no Krishnamurti que algures disse mais ou menos isto: "podemos ir muito longe se começarmos perto. (...) temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo." e quem não tiver paciência para nenhum dos três podia apenas plantar flores, ou observar pássaros, ou olhar nos olhos de com quem se cruza na rua. e sorrir. sobretudo para os desconhecidos.


o mundo não vai acabar. mas o calendário Maia acaba mesmo em 2012. e bem do alto da minha profunda impaciência eu digo "foda-se, já é tempo de abrir os olhos".

12.9.11

(aviso: eu disse há dias que a minha vida é bastante estúpida. por isso não têm de estranhar o que vou dizer a seguir ser dito muito fora de tempo.)


vi ontem, pela primeira vez, o Vicky Cristina Barcelona do Woody Allen. não vou dizer se gostei ou não do filme pois nem sei bem se é um filme para gostar ou não. acho que é sobretudo um filme para ver e depois ficarmos em frente ao espelho.


mas vou dizer o que me ocorreu no fim e o que disse a quem estava comigo enquanto fumava um cigarro assim meio chateada: "porra, ele diz que não há redenção. que voltaremos sempre aos nossos pecados. que não evitaremos os erros clássicos do querer demais ou do não lembrar o que se quer. parece-me uma abordagem à essência humana demasiado redutora. e sobretudo covarde. mas se calhar eu é que sou louca. de qualquer modo, a haver só duas saídas, eu sou completamente Cristina."
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The heavens are wide open! All mysteries are dead
In Man's eye, who stands, crossing his strong arms
Within the endeless splendor of nature's bounty.
He sings... and the woods with him, and the rivers
Murmur a jubilant song that rises into the light...
- It is Redemption. It is love. It is love!

Arthur Rimbaud - Credo in unam (Letters)
eu gosto de pessoas que são, ou já foram, doídas. essas são mais verdade. são mais coração. são mais sangue. são mais tudo. essas sabem que se pode morrer de amor. e eu gosto de pessoas que sabem que se pode morrer de amor. mas gosto ainda mais das que sobrevivem. essas aprendem durante o percurso em forma de calvário que por vezes a maior prova de amor é saber abrir as mãos. mesmo que fiquem sem nada. mas quem sobrevive ao nada fica preparado para tudo. quem nunca se sentiu morrer é porque nunca se soube vivo.

(e há quem diga que a dor da perda e a dor de corno são a mesma coisa. pois entre as duas eu vejo um abismo. e é por isso que apesar de gostar de pessoas que são, ou já foram, doídas, não gosto de gente ressabiada. normalmente essa gente torna-se má. e perigosa. amor e posse são palavras que só podem coexistir na mesma frase quando se negam uma à outra.)



Kristy Krueger - It hurts most of all when I'm standing still

(e isto tudo só para partilhar o que me foi mostrado por um exagerado que anda por aí)
X estava na dúvida se hoje pendia mais para o lado Bela Adormecida ou para a via Lara Croft. mas, depois de receber uma mensagem da sua junta de freguesia que dizia "vem aprender Krav Maga (sistema israelita de defesa pessoal e técnicas de combate)", X sentiu um sorrisinho luciférico desenhar-se-lhe na cara. e quase que ficou empolgada. e entretanto a dúvida dissipou-se - a parte da Bela Adormecida é mesmo só porque hoje a cafeína não está a fazer efeito.

10.9.11

tenho alguma tendência para gostar de música triste. tenho ainda mais tendência para gostar de música de inverno. mas o que realmente gosto é de música que se adequa ao meu estado de espírito a cada momento. que me parece triste quando estou triste. e que me parece cheia de tudo nos outros momentos. música de desamores também gosto. embora quase nunca a suporte. se for séria, ouvi-la quase sempre dói. se não doer não é porque não se sabe. e em sabendo, sobreviver-lhe é quase sempre difícil. ainda que no dia seguinte se acorde de novo. às vezes até a sorrir. hoje estou num dia de música de primavera com nevoeiro. talvez por isso me deu para ouvir isto.


The Stranglers - Midnight summer dream

One thing's pretty certain helped me
Make it in the night
Showed me somewhere else between wrong and right

Do I contradict myself?
Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)

Walt Whitman
v

era. pretérito. e imperfeito.
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X não é nada alta. mas com 10 cm a mais já fica com a cabeça acima de grande parte das pessoas com quem se cruza no elevador durante o dia. X tem vindo a constatar alguns fenómenos: os homens com quem se cruza no elevador do alto dos seus saltos (i) são mais simpáticos do que o costume, (ii) mas, logo depois, baixam a cabeça e olham para os seu próprios pés, (iii) e tratam X por "você" ou "senhora".

9.9.11

e hoje X está assim a modos que supercalifragilisticexpialidocious

("You know you can say it backwards, which is 'dociousaliexpilisticfragicalirepus', but that's going a bit to far, don't you think?" Mary Poppins)

8.9.11

morar em frente, mas mesmo em frente, a um hotel tem o seu quê. por uma lado, podemos chegar a casa a desoras e, quase sempre, ter estacionamento livre à porta. e problemas de segurança quase que não existem. sobretudo considerando que, no caso concreto, o recepcionista está quase sempre à porta a falar ao telefone lá para os lados do Bangladesh. por outro, há coisas assim um bocadinho mais difíceis de gerir. por exemplo, depois de estar a trabalhar madrugada fora, ir fumar para a varanda e ver uma janela de um quarto ostensivamente aberta, onde um casal está fazer alguma coisa (que, no caso concreto nem sequer dava bem para perceber o que era, embora X, ainda assim, consiga fazer uma ideia muito próxima). e isso nem sequer é mau. mau mesmo mau é ter de levar com a Celine Dion como banda sonora.
durante o dia, X fala uma língua qualquer que, por vezes, não se percebe muito bem qual é. nos últimos minutos foi mais ou menos assim "já acabaste os customs? deixamos as migratory offences? foda-se, quero lá saber do raio das offenses. product liability? counterfeit products? mas estes gajos pensam que estão onde? se existe stock exchange no antigo Zaire? lol!!! lol!!! lol!!! dah! não te esqueças do forex. os tax returns! fuck, esqueci-me, dessa merda. ai... como se chama aquela treta maningue esquisita a que dão o nome de clearance qualquer coisa doc.? paralell trade? lol!!! lol!!! lol!!! dizes-me as exemptions do Botswana dizes? foda-se! café? café? café? não posso, não posso, não posso. ai foda-se outra vez. reunião? já são horas? quem tá a tratar do seysmic? ah bom, o farm out tá em stand by? este matter tá a andar? cool. ai foda-se que me esqueci do pequeno almoço. e do lanche da manhã. tenho de comprar tabaco. caray de paraguay que tou farta disto até à moleirinha! almoçar? ok ok going down!". e isto não tem interesse nenhum. mas a vida de X tem muitas coisas que não interessam quase nada, embora a impeçam de, em tempo útil, ir, por exemplo, levantar o cartão do cidadão que aguarda pacientemente algures há que tempos. e de trocar uma lâmpada dos médios do carro que logo havia de ter fundido mesmo antes da inspecção. o carro passou. X tem um ar entre o simpático e o "não me lixes senão mordo-te." às vezes, dá jeito.
e X chegou a casa já muito tarde e viu um rapaz giro mesmo giro à sua porta. X parou a meio da escada, olhou com um ar entre o indignado e surpreso e pensou "mas quem é este? e o que faz aqui?". X está cansada. mas não reconhecer o irmão à primeira parece-lhe um sintoma bastante grave. X trazia coisas para acabar em casa. mas depois disto mudou de ideias.

7.9.11

(... and yet, despite the half crazy stuff, she is an awfully ordinary girl.)
(aviso: X escreve mais depressa do que pensa. e, normalmente, não pensa no que escreve. sai-lhe. normalmente, também, não lê o que escreveu. faz só "publish post". para além disso X é, também, assim um bocadinho disléxica. e, às vezes, se quer escrever, por exemplo, "maresia" sai-lhe "remasia" ou "siamare" ou outra qualquer coisa do género. às vezes, também troca acentos. ou então não os põe de todo. e também tem dias que inventa palavras. quando essas palavras dizem exactamente o que X quer dizer. e tem alguns vícios de África. e outros tantos vícios anglófonos, já que passa o dia a escrever numa língua que não é sua. X escreve muitas vezes sobre coisas simples, ou então meio estranhas, no meio de outros processos ainda mais estranhos. e é por isso que, muitas vezes, X corrige os seus próprios erros ortográficos. quando os encontra, pelo menos. ou então, quando lhe dá para isso porque não tem mais nada de importante para fazer. no entanto, as palavras que, às vezes, inventa, não as corrige. porque dizem exactamente o que X quer dizer. X, amiúde, também não gosta de vírgulas nem de pontos. mas isso é, sobretudo, quando o que escreve resulta do que lhe corre sem freios por dentro da cabeça. sim, X, às vezes, escreve palavras com erros e frases sem regras sem ter grandes preocupações com isso. e é isto.)

6.9.11

escrevi as minhas primeiras palavras com mais ou menos quatro anos. mas aquilo cansava-me e pedia sempre à educadora que me deixasse identificar os meus trabalhos com símbolos. como os outros meninos faziam. queria sempre desenhar o sol. parecia-me a coisa mais distante e enigmática que estava ao alcance dos meus olhos. ela nunca me deixava. e obrigava-me a escrever o meu nome em letras ainda meio toscas. achava aqueles miúdos todos bastante chatos. alguns choravam muito. e tinham medo de levar vacinas. e da professora. e das contínuas. e dos outros meninos também. nunca gostei de gente com medo. talvez por isso, não me lembro de ninguém. na escola primária aborrecia-me de morte ter de esperar que os outros percebessem as coisas. fazer riscos e bolas tentando desenhar letras parecia-me bastante básico. tinha uma grande amiga. desses tempos, só me lembro de mais um miúdo, que era completamente idiota. e que me perseguia todos os dias no fim das aulas. e berrava "X eu gosto de ti". eu detestava-o com todas as forças das minhas entranhas ainda muito pequenitas. na terceira classe mudei de escola. não gostei. nessa a professora batia com uma régua. a mim nunca me bateu, mas aquilo parecia-me sempre bastante bárbaro. e sempre injusto. tinha uma grande amiga que desapareceu de um dia para o outro porque os pais mudaram de cidade. os outros pareciam-me quase todos bastante parvos. na preparatória tudo me parecia relativamente simples. fiz alguns quase grandes amigos. mas que rapidamente deixaram de o ser. apesar de não ser uma mente excepcionalmente brilhante, fui a melhor aluna da escola. por causa disso ganhei a minha primeira viagem quase sozinha a um país no meio da europa no âmbito de um intercambio escolar. foi a primeira vez que estive sozinha. e que o mundo me pareceu enorme. e que percebi que é possível comunicar sem palavras. fiz 12 anos longe da minha família e festejei-os no meio de uma família que não era minha mas que me acolheu como se fizesse parte. cantaram-me os parabéns em alemão. eu não percebi nada. mas gostei. e senti-me parte de um mundo gigante que antes desconhecia. no secundário mudei novamente de escola. e fui aterrar no meio de um edifício frio e gigante. quase desumano. suponho que nessas idades é normal ser meio parvo. mas eu achava que a grande maioria era mais parva do que seria admissível. tinha vários conhecidos. fiz uma amiga. nunca mais a vi. na altura tinha um pseudo-qualquer-coisa-não-sei-bem-o-quê-mas-que-diziam-que-se-calhar-era-meu-namorado a quem um dia disse "hoje não me apetece estar contigo porque quero acabar de ler Os Maias". acho que me lançou um quebranto e que ainda hoje me odeia. ou não. não percebo muito bem. no fim do secundário decidi: vou deixar tudo e vou estudar para longe. fui. e foi nesse percurso que encontrei um pequeno grupo de pessoas que (a grande maioria) ainda hoje me acompanham. tive alguns pseudo-qualquer-coisa-não-sei-bem-o-quê-mas-que-definitivamente-nunca-foram-meus-namorados-graças-a-deus. nunca lhes dei importância nenhuma. mas estive no meio de uma história de terror, também. há alguns anos decidi dar um pontapé na vida e deixar quase tudo outra vez. fui para longe. fiz alguns grandes amigos. e comprovei que apesar de o mundo ser enorme é bem mais pequeno do que parece. e que os afectos não têm fronteiras nem dias nem horas nem cores nem quase nada que os impeçam de ser, desde que sejam, sem terem outras razões para ser que não o serem em si mesmos. incondicionais. e intemporais. acho que sempre quis ir onde não sabia. que por isso sempre fui desligada. algo distante e ausente. talvez até tenha sido sempre bastante anti-social. mas sabia exactamente o que queria. e por isso há hoje um punhado de pessoas de quem gosto muito e que são a minha vida toda. são os que ainda me acompanham. a eles, obrigada pela paciência. e por sonharem comigo. e por não se renderem. e por serem como são. e por me deixarem a mim ser como me apetece ser.
há dias deu-me assim uma vontade de fazer mais um piercing. ou uma tatuagem (na verdade não tenho nenhuma, nem nunca me deu para isso). mas respirei fundo e pensei "oh X deves andar mesmo muito aborrecida!". entretanto saí com umas pessoas que já não via há anos. essas pessoas trouxeram um casal amigo: ela faz piercings, ele é tatuador. e há quem diga que deus não tem sentido de humor!


(decidi, no entanto, que tatuagens não faço - as coisas perenes atrofiam-me. como os móveis sempre no mesmo sítio. ou as cores que não mudam.)
e hoje X está com ar de Minnie e feitio de Maga Patalógica.

(beware, beware, do not be fooled by her looks. she's as naugthy as only a kinky witch can be.)
uso com tanta frequência a palavra detesto como a palavra gosto. definitivamente não sou pessoa de cinzentos. nem de tons beije. sou assumidamente exagerada nas opções. ou tudo ou nada. assim-assim é que não.



The Cure - Lullaby
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promete-me só um dia de cada vez. promete-me que no dia seguinte começará tudo de novo.

5.9.11

como se chama aquela coisa que nos envolve pela cintura e aperta aperta aperta aperta mas que em vez de doer nos faz cócegas?

4.9.11

foi no dia que senti essas mãos frias e transparentes querendo roubar-me o ar que me tornei um monstro. esse paternalismo covarde foi o acelerador. a sobrevivência fez o resto. e ainda assim todos ficamos a ganhar. apesar de tudo, o mundo equilibra-se. e não digas que estás contente. porque isso afinal não quer dizer nada. fica só em silêncio. e longe.

confesso que ela faz-me ter vontade de lhe arrancar um pedaço com os dentes

Anna Calvi

13 de setembro, Lux
bom dia mundo!
bom dia mundo!
bom dia mundo!
bom dia mundo!
bom dia mundo!
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Anna Calvi - Desire

Those who restrain desire, do so because theirs is weak enough to be restrained.

William Blake
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quero tudo, ainda que o meu tudo não seja muito, mas quero tudo, menos do que isso recuso

3.9.11

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e às vezes acordo com o diabo colado ao corpo dizendo-me ao ouvido "vende-me a tua alma e ofereço-te o mundo". e ele sabe que sem alma o mundo me interessa muito pouco. mas insiste, e insiste e insiste.

Lau Nau - Painovoimaa, valoa

porque me parece uma boa forma de terminar esta semana. ou simplesmente porque me apetece adormecer ao som disto. ainda que queira acordar sem isto na cabeça.

2.9.11

ele, ela, ele e ela, ou ela e ela, ou ele e ele, ou elas e elas, ou eles e eles, ou eles e elas todos ao molho, eles (em qualquer uma das variantes) dizendo nós, um império, fora sempre assim e deus podia dormir descansado.
destesto coisas banais. mas gosto muito de coisas simples. e daquelas pequenas rotinas que o são sem se dar conta.
e, apesar de tudo, acordei tão cheia por dentro que corro o risco de explodir num fogo de artifício cheio de cores. nunca saberemos o amanhã, por isso mais vale aproveitar o já. e por isso decidi libertar alguns fantasmas. sejam felizes no vosso inferno. o meu está quase quase no fim. ontem também comprei girassóis.

1.9.11

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e esta é uma prova de que há momentos na vida em que, vindo sabe-se lá de onde, nos aparece à frente, como que por magia, exactamente aquilo que procuramos durante tempo que parece infinito. e que, frequentemente, o que tanto procuramos acaba por nos aparecer nos sítios mais insuspeitos. amiúde em situações muito pouco prováveis. as mais das vezes, mesmo até no meio daqueles momentos mais difíceis que nos vão corroendo um bocadinho mais por dentro. neste caso foi na loja do Adolfo Dominguez no Saldanha. sítio esse que na cabeça de X em situação alguma faria sentido entrar. no momento em concreto, X estava ainda com o estômago revolto. e bastante mais angustiada do que o normal. mas há pequenos momentos que não nos é permitido perder. por nos virem, de algum modo, preencher as ânsias de sempre. mas para isso há que cuidar que os olhos não fiquem toldados com os cinzentos que nos acompanham, sob pena de não olharmos a montra e perdermos a oportunidade de, enquanto se faz um plim por dentro, dizermos: é exactamente isto que procuro há anos! (hoje, em especial, este post até pode parecer bastante estúpido. mas acreditem que talvez seja dos mais sérios que escrevi desde que comecei este blog.)

31.8.11

pronto... e agora tenho de vestir a pele da pessoa séria que também sou e dedicar as próximas horas a cogitar intensamente acerca de uma cena a que em estrangeiro se chama historical environmental liabilities embora hoje tenha acordado com o diabo por dentro que não pára de me dizer fuck it and go to Paris, drink red wine and write a book in blood red ink. (foda-se que às vezes juro que tenho medo do que me passa pela cabeça)
não gosto de palavras entre aspas. gosto de palavras cruas. directas. mortais.
às vezes tenho a sensação que se abusa em demasia da palavra saudade. eu saudade não sinto. o que sinto algumas vezes é que me arrancam o coração e me deixam ali um buraco enorme no peito. mas saudade isso não é. pelo menos não é a saudade dos comuns.