6.10.11

detesto aquela pergunta: "então, está tudo bem?". mas detesto ainda mais quando me respondem: "vai-se indo!". é que ir-se indo é tão circular que não leva a lado nenhum.

4.10.11

é difícil ultrapassar. fazer as pazes. colar o coração. o corpo. a alma. é difícil compreender. é difícil aceitar. ver a magia transformar-se em terror. e é sobretudo difícil dizer adeus. diz-se quase sempre com raiva. e sem verdade. e sempre com lâminas a cortar-nos por dentro. o que é não precisa de razões. e o que deixa de ser também não. talvez seja isso que precisamos de aprender a aceitar. talvez seja isso o que se chama crescer. é difícil. mas vai-se tornando mais fácil. e não é o tempo que cura. (até pode haver remendos. mas não há cura para corações partidos.) é antes a alma que dilata de modo a caber mais lá dentro. ao explodir tornámo-nos imensos. e isso dói. mas quem já sentiu um coração desfazer-se não vai querer menos do que outra possibilidade de ele se vir a estilhaçar. menos é pouco. a paz é arrebatada. se assim não for chama-se sono.

3.10.11

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"listen; there's a hell of a good universe next door: let's go."
ee cummings

X hoje tem o coração aos pulos. X não sabe porque é que hoje tem o coração aos pulos. X não gosta de ter o coração aos pulos sem saber porque é que tem o coração aos pulos. X quer que os pulos do coração parem.
é uma coisa que me intriga, e à qual volto com insistência: onde devem ficar os outros no nosso processo de escolha? como lidar com os rebuliços que causamos sem que queiramos? será seguir o caminho que pensamos ser o nosso apenas um acto egoísta? e se errarmos? e se errarmos? e como explicar a quem fica para trás? devemos desculpas? ou sou só estúpida em preocupar-me com isto? então e se for ao contrário? foda-se... às vezes somos bárbaros! e isso, é sempre mau?
tenho pena. não sei é bem de quê. mas tenho pena. se calhar tenho é pena de ter pena. são penas a mais.

2.10.11

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"We are one, after all, you and I, together we suffer, together exist and forever will recreate each other."

Pierre Teillard de Chardin
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"sex is often overrated"

30.9.11

(coisas que ocorrem a X à hora de almoço: X não é dada a depressões nem tem problemas de auto-estima. X gosta do que faz e não tem problemas com chefes ou colegas de trabalho. X não tem particular aversão por segundas-feiras, nem especial euforia com sextas. X não é dada a doenças e só faltou uma vez ao trabalho por causa de um ataque de rinite fulminante (mas isso foi antes de descobrir os comprimidos maravilha). X não tem pachorra para intriguisses nem para o mal-dizer. mas X também não tem qualquer problema em dizer exactamente o que pensa a quem quer que seja. X não se preocupa em ser politicamente correcta e não tem medo de consequências que daí advenham. X não faz fretes e não tem problemas em dizer "cala-te estás a aborrecer-me de morte". X quase não vê televisão e não conhece quase nenhumas das caras que aparecem nas revistas. por isso, X, quase sempre, sente-se muito deslocada nas conversas e, às vezes, chega a pensar que não deve ser muito normal.)
hoje fui espreitar o ano de 2008. encontrei este texto que foi escrito no meu dia de anos. revivi todos os segundos que passaram por mim enquanto o escrevia. e percebi que apesar de ter muitas vezes vontade de acabar com este blog, provavelmente, nunca o conseguirei fazer.

Um dia acordamos e tudo desapareceu. Nada é. Nada está. Vácuo. Só. As vozes misturam-se num interminável curso de sons imperceptíveis. Fingimos perceber. Fingimos estar. E fingimos ser o que alguém espera que sejamos, sem saber exactamente o que é isso, pois não sabemos nem quem somos, nem quem são os outros. Tentamos agarrar-nos a coisas que nos pareçam ligeiramente familiares. Tentamos olhar-nos no espelho e encontrar uma réstia de semelhança com a ideia que faziamos de nós. Mas, nada. Nada. Nada. Pedimos em silêncio que nos puxem de volta. (Parece sempre mais fácil voltar ao que se sabe do que enfrentar o que se não conhece.) Mas o abismo acena-nos promessas de tudo. E vamos. Brincam-nos com a cabeça depois. Arrancam-na. Fazem malabarismos perigosos. Voltam a pô-la no sítio por breves instantes. Mas é só para termos a certeza que nada é do que já foi. Voltam a arranca-la. E isto acontece sempre, sempre, sempre. Até percebermos que não somos nós que controlamos o movimento de vai e vem. Depois perdemos tudo. Mesmo o que antes parecia enterrado até ao centro da terra. Num plim tudo deixa de ser. Medo depois. Medo. Muito medo. Quem és tu que estás ai desse lado do espelho? Onde está o eu que tu roubaste? Confusão. Sons. Luzes. Risos. Lágrimas. Muito de tudo. E tudo muito. E, ao mesmo tempo, um vazio. Cheio. Um vazio cheio. É isso. Um vazio cheio. Descontrole. Alucinação. A certeza que a vida como era nos foge. Levam-na. Roubam-na. Mas enfim passamos a sentir tudo. Como antes não ousavamos sequer pensar que fosse possivel. Sentimos tudo. Bom e mau. E tudo lá, naquele sítio que dói e que faz rir. As palavras então saem disparadas por armas de arremesso perdidas algures no meio de nós. Ou então, ficam presas. E os lábios quietos. Xiuuu. Um dia, morremo-nos. Desistimos da guerra. Aceitamos que acabará ali. E que nada o pode impedir. Pomo-nos nas mãos de quem nos tolhe os movimentos. Dizemos que estamos à disposição. "Façam o quiserem! Eu não sou, não sei, não mando, não nada..." e pronto, morremos. E nesse exacto momento somos invadidos por um sopro quente de vida. Que nos entra pelos bocadinhos todos do corpo. Sentimo-nos levitar. Sim, sentimo-nos levitar. Sentimos os olhos encher-se de luz. Ficar transparentes. Mudar de cor. Passamos a ver à frente e atrás. Por fora e por dentro. Pelas margens e através. O coração bate. O peito enche-se. As lágrimas, essas, continuam a despedir-se de ontem. Misturam-se com o riso pela descoberta do plano onde o espaço e o tempo se misturam numa esquizofrenia de sentidos. Á nossa volta, luzes dançam. Vozes cantam. E dão-nos as boas vindas à terra de ninguém e de todos. Depois, renascemo-nos. Sem quase nada a ocupar-nos por dentro. Prontos a recomeçar. Mas agora num patamar acima. Crescemos um bocadinho mais em direcção a casa. Sabemo-nos no sítio certo. Mas ainda assim, às vezes temos saudades. No fim, o terror acaba. O dia volta. E passamos a perceber que entre a loucura e a iluminação a diferença é muito ténue.

9 de Julho de 2008

29.9.11

"(...) Com o mesmo entusiasmo, com a mesma certeza, com a mesma confiança, engajemo-nos ainda mais resolutamente no combate pela paz, pelo progresso, pelo bem-estar, pelo socialismo, pela felicidade.


A luta continua!

A Revolução Vencerá!

O Socialismo Triunfará!"


São as pequenas delícias de trabalhar com Repúblicas que já foram Populares - isto é ipsis verbis o final de documento que estou a consultar para um trabalho qualquer.

Mono - Pure as snow (trails of the winter storm)

28.9.11

acordei com vontades canibais. apetecia-me comer-te aos pedaços. lembrei-me então que não restou nenhum. lambi os cantos da boca. lavei os restos com água morna. vesti a pele dos inocentes. e saí à rua. o dia estava bonito.
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queria ser capaz de explicar como equilibrar a luz e o escuro. o céu e o inferno. o aqui e o além. não sou. mas sei que é possível. ainda que o equilíbrio seja frágil. e o processo seja lento. e a agonia seja imensa. vi-me renascer. e senti as dores do parto. a frio. a ferros. a fogo. mas valeu as penas. oh se não valeu todas as penas.

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Julianna Barwick - Flown

há calmas assim. desquietas. sê com elas. vai... entra na toca da Alice. e plim!
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"Sin is no longer your master, for you no longer live under the requirements of the law. Instead, you live under the freedom of God's grace."

The Holy Bible - Romans 6:14

27.9.11

não gosto de memórias. talvez por sempre ter tido tendência a não me conseguir desprender delas. por isso hoje não tenho nada no meu espaço com passado. hoje guardo apenas algumas coisas por dentro. e quase todas elas têm nome próprio. tudo o resto me parece acessório. na hipótese má é até incómodo. talvez por isso hoje não gosto de memórias. gosto mais do imediato. do que é. o que foi interessa-me pouco. ou quase nada. se foi e deixou de ser é porque já não importa que não seja. e se algum dia alguém quiser reconstruir a minha biografia terá dificuldade. da parte que diz quem fui há poucos registos. eu não guardo quase nenhuns. mas histórias há muitas. contudo terão de ser contadas em forma de voz de gente. daqueles cujos nomes próprios eu guardo. partilhamos algumas histórias. umas que já foram. outras que ainda são. e outras que esperam ainda para ser. mas as que já foram vão ser ainda no futuro. e as que ainda não aconteceram têm os pés no passado. são movimento. adiante e ao avesso. são ontem e hoje e amanhã. são aqui ali e além. mas isso não são memórias. são pedaços da nossa essência. de áfrica não guardo memórias. nem sequer saudade. de quem já fez parte da minha vida e já não faz não guardo memórias. nem sequer saudade. guardo isso tudo em forma de pequenos pedaços daquilo que sou hoje. sim, hoje não gosto de memórias. mas gosto de todos os pedaços que me são. e gosto de risos e abraços de gente de carne. tenho caixas por abrir. mas não me apetece. e já só me faltam queimar alguns papéis. já nada disso é meu. e tem tudo pó.

26.9.11




Joanna Newson - Does not suffice

(isto porque hoje me apetece música com sabor ao último copo antes do fim da festa mesmo antes das luzes se apagarem e ir toda a gente para casa)
"E quando tiveres tempo e vontade lê isto. Nem que seja uma frase de cada vez.

Esse é o caminho que tens de percorrer e que te vai tirar o que conheces e dar o que realmente precisas a seguir. Pelo meio, se te deixares de reconhecer - quer seja pelas coisas novas que sentes, pela forma diferente como vês os outros ou pelas necessidades novas que te aparecem - não te admires. É mesmo assim. Procura é interiorizar o que sentes e conhecer-te de verdade. Terás dúvidas, medos, e por vezes até podes errar no caminho, mas isso é mesmo assim. O caos, as dúvidas, o terror, o vazio, a sensação que uma bomba atómica te rebentou na cabeça e o pavor do desconhecido são elementos centrais nesse processo de crescimento. Mas esse é o caminho da paz."
"More than kisses, letters mingle souls."

John Donne


cruzei-me com esta citação no livro de cartas de Reiner Maria Rilke que estou a ler. mais do que os poemas do Rilke, gosto das cartas do Rilke. é ali que ele mostra a alma sem outro cuidado que não o de dizer o que pensa. diz-se que ele tinha imensa preocupação com a apresentação da própria carta. que reescrevia cada página quando havia gralhas. que eram imaculadas. podiam até ser, mas não é isso que me agrada nele. o que me fez apaixonar por Rilke foi a forma como ele via o mundo. e as palavras com que o descrevia. são imensas. são gigantes. são algumas vezes absurdamente simples. outras incrivelmente profundas. e Rilke via o mundo um pouco como eu. ou melhor, eu vejo o mundo um pouco como o Rilke. mas não é só por isso que eu gosto de quase tudo o que dele leio. é a intensidade das palavras que ele usa quando se dirige a alguém. mesmo que esse alguém seja, às vezes, não muito determinado. isto porque acho que muitas das cartas que ele escreveu, embora tivessem um destinário, podiam ser dirigidas a qualquer um de nós. e isto fez-me lembrar cartas e coisas que eu própria já escrevi. algumas dirigidas a pessoas concretas. outras a ninguém. e outras, se calhar, a mim própria. e sobretudo cartas e coisas que me escreveram a mim. e, por isso, confirmo a citação do John Donne - as palavras conseguem ter mais força do que os beijos. mesmo que sejam beijos muito bons. as palavras arrepiam-me. exaltam-me. tiram-me o ar. as palavras fazem-me sentir viva. ou a morrer. as palavras fazem-me rir. ou chorar. as palavras são a ligação mais real que eu tenho ao mundo. é sobretudo através delas que sinto. os beijos passam. alguns (ou quase todos) até se esquecem. mas as palavras não. essas ficam gravadas para sempre. e algumas ainda me doem. ou me fazem rir. mas sobretudo as palavras fizeram com que a minha alma se unisse a outras (poucas) almas. mesmo à distância. ou sobretudo à distância. e, para mim, não há verdade maior do que esta.
Sigur Rós - Von

eu não sabia. mas eles avisaram-me muito antes de saber que me havia de despedir. guardei-os com carinho e apertada por dentro. eu não sabia. mas o sítio onde os fechei haveria de ficar no escuro muito tempo. mas eu sabia que lhes ia voltar. há amores que não morrem nem que se queira muito. e hoje voltaram a soar em minha casa.
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Sigur Rós - Vaka


Sigur Rós - Svenf-g-englar


"without music life would be a mistake"
Nietzsche

25.9.11

"We are solitary. We may delude ourselves and act as though this were not so. That is all. But how much better it is to realize that we are so, yes, even to begin by assuming it. We shall indeed turn dizzy then; for all points upon which our eye has been accustomed to rest are taken from us, there is nothing near any more and everything far is infinitely far. A person removed from his own room, almost without preparation and transition, and set upon the height of a great mountain range, would feel something of the sort: an unparalleled insecurity, an abandonment to something inexpressible would almost annihilate him."

Reiner Maria Rilke - Letters to a young poet (no. eight)

(há uns tempos disse que achava que só havia relido 3 livros. mas a este (e a outros) volto muitas vezes. sinto-lhe todas as palavras.)
há muitas coisas de que eu não gosto. mas o que me mete mesmo nojo são escamas de peixe. odeio. para me causar mais nojo do que as escamas de peixe só mesmo gente má. ou desleal. e eu vomito mesmo se toco em escamas de peixe. por isso suponho que dá para perceber como a gente má ou desleal me revolve as entranhas.
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Warpaint - Shadows

Marissa Nadler - Leather made shoes

(não tenho palavras agora. isto ocupa-me tudo.)

24.9.11


é enternecedor. elas tinham uma mensagem colada no frigorífico que dizia "don't postpone joy". e não adiaram. e viveram felizes até ao fim. é enternecedor, repito.

23.9.11

X recebeu hoje uma mensagem de alguém de quem não tinha notícias há muito muito muito tempo. no meio da mensagem dizia algo como "descobri-te no google. já sei que és uma [profissão de X] famosa".

X estava a beber café quando recebeu essa mensagem, engasgou-se e quase se cuspia toda. a razão foi ter feito contas e ter percebido que (respira fundo X, respira fundo!) já se passaram 18 anos! é que a parte do "famosa" não é de todo verdade.
pior do que não respeitar grandemente essa coisa dos dress-codes é estar num local público com os chefes, incluindo o que dizem que é "mau", fazer um gesto assim tipo "hang loose" e deitar-lhes a língua de fora. pior ainda é ter um piercing na língua vai para sei lá quantos anos - do qual já não me lembro sequer - que quase nenhum deles conhecia. mas surpreendente, mesmo supreendente, foi ver o que dizem que é "mau" ter um ataque de riso, agarrar-me pela cintura, fazer-me dar duas piruetas e no fim pousar-me, dar-me um beijo na testa. se as pessoas fossem mais elas o mundo era tão menos aborrecido!
chegar a casa já muito noite e, no dia a seguir, sair de casa ainda muito noite tem as suas vantagens. por exemplo, (i) o trânsito é quase nenhum e (ii) conseguimos ter a paciência suficiente para ouvir o Michael Bolton na rádio pela manhã (embora ainda muito escura) e até fazemos uma versão "sing along" enquanto os semáforos não ficam verdes. sim, são 9.35 h e eu já estou nisto vai para 3 horas.

22.9.11

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a imagem não é desfocada por acaso. é assim uma espécie de alma penada que anda cá por casa. não deve ter sequer meio quilo, mas isto já está mais ou menos definido: a ala da frente da casa pertence a maria amélia; carlota joaquina domina a ala das traseiras. quando se encontram no corredor a coisa fica esquisita. mas hão de chegar a um entendimento qualquer. haja fé!

há muitos anos, quando acabei de ler "a morte em veneza", a quem me o recomendou com um efusivo "é lindo" eu respondi com um rosnar qualquer. nunca mais li nada de thomas mann. mas hoje, depois de um suspiro, agarrei "a montanha mágica". e esta é a prova que devo ser masoquista. logo tinha de escolher um que tem exactamente 832 páginas. e a primeira não promete, devo dizer.

21.9.11

hoje acordei em posição de anjo. a cama pareceu-me mais macia. e a roupa não se enrrolou no corpo. isso deve querer dizer que os pesadelos acabaram. é assim. um dia acordamos e nem reparamos que as imagens que nos ocuparam já não estão lá. foram todas devoradas pelo imenso céu lá de fora. e ele hoje não estava azul. estava assim em tons lilás. e havia daqueles confetis de festa a cair por todo o lado. suponho que seja uma forma irónica de celebrar o fim. ou a falta que essas imagens de sempre já não fazem. e isso é a mesma coisa não é? já disse que sol tem um brilho diferente? e que já não franzo a testa? talvez não. vou perdendo a memória. mas há um sítio escuro onde sei não querer ir. mas até para lá já esqueci o caminho. já disse que o céu hoje estava em tons lilás? e que havia daqueles confetis de festa a cair por todo o lado?

20.9.11

não sei bem o que me levou a isso mas hoje, enquanto tentava acordar, conclui que levamos demasiado tempo a perceber que aqueles que perdemos talvez nunca nos tenham sido. ainda que levem pedaços de nós na saída e nos deixem em ruínas algures.


e, ainda assim, não consigo decidir se olhando para trás apetece rir ou não. mas uma coisa sei - olhando para a frente o futuro é muito mais. ainda que, às vezes, olhando para o que restou sejamos tentados a pensar "que pena".


e isto apenas porque, quase paradoxalmente, aqueles que perdemos - mesmo que nunca nos tenham sido - são, quase sempre, os mesmos que nos levam a aprender a ser.


resumindo, talvez o que leva a perda a atingir proporções, por vezes, tão dramáticas sejam apenas banais dores de crescimento. mas quando é a alma a crescer dói mais. é a consciência a esticar até ao limite da sanidade. é de uma rara beleza andar sem ter sítio para pousar os pés. mas é difícil também. ouvem-se cantilenas ao longe. daquelas dos filmes de terror. que arrepiam. e sentimos sempre uma corda ao pescoço pronta a esticar ao primeiro passo em falso. embora nesse caminho os passos estejam previstos desde o início. e mesmo que não pareça, há mãos que nos agarram mesmo antes de cairmos no abismo.


e eu nunca disse que isto era simples.

16.9.11


Peter Broderick - And it's alright

12 de Novembro, Musicbox

(e eu continuo a perguntar quem no seu perfeito juízo acha que o Musicbox é um bom sítio para qualquer tipo de concerto. enfim...)
(X explica: X dorme pouco. normalmente umas 5 horas, 6 no máximo, muitas vezes só 4 ou, nos dias mesmo maus, não mais de 3. por razões profissionais, X está grande parte do dia em frente a um pc. X tem um trabalho giro. mas às vezes é meio aborrecido também. seja como for, é demasiado sério. sempre. e X precisa de coisas mais sonho, mais nuvens, mais branco. X tem muitas cabeças. todas dentro da mesma. cada uma vai exigindo o seu momento. e, por isso, X divide-se com muita frequência ao longo do dia entre coisas absolutamente díspares. quando esteve longe, X ganhou um hábito que ainda não conseguiu perder - tem de estar sempre ligada: o gmail está sempre aberto, o skype está sempre ligado, o facebook também e o blog tem sempre a página "new post" em stand by. e X nem sequer passa tempo com pessoas virtuais. nem usa o msn. nem costuma conhecer pessoas que, por qualquer razão, encontra online. nem sequer fala ao telefone sem que tenha alguma razão importante para isso. X é até algo anti-social, mas tem de estar sempre ligada. mesmo fora de casa - o telefone está (quase) sempre ligado e, por razões profissionais, está sempre sicronizado com o outlook e sempre com acesso à net (menos ao fim de semana que é quando X quase sempre o ignora.) por isso, sempre que alguma coisa a transporta para algures sabe-se lá onde, X pára. e regista. e, por isso, é que este lugar, às vezes é tão activo. ou diz coisas tão diferentes. X é muitas. pronto. às vezes, X regista só com a camara fotográfica. as imagens que capta são (quase) sempre resultado do imediato. e não pensadas. são apenas resultado de um instante qualquer. X não passa mais do que alguns minutos por semana com a camara na mão - não tem tempo para mais. nos entretantos, vai tentando ter uma vida, também. mas, às vezes, não consegue. quando tem tempo, X prefere espaços abertos. com ar, luz e sol. X ganhou uma espécie de fobia a espaços fechados. e, por isso, durante muito tempo custou-lhe entrar em salas de cinema. mas agora essa fase já está a passar. mas X gosta, sobretudo, de sítios que cheirem muito a livros. embora tenha muito pouco tempo disponível para lhes dedicar. ao fim do dia, a cama é o seu mundo. do lado direito tem os livros que se vão acumulando, do esquerdo a camara fotográfica, aos pés o mac (sempre, mas sempre, ligado - sim a bateria já pifou). X não costuma ver televisão. não lhe perguntem nada daquelas séries que toda a gente da idade de X vê. já a cama de X é uma espécie de caos. e se um livro anda perdido, o mais certo é estar escondido nos lençois. e os fones. e alguns cds também. X não consegue ouvir a música que realmente gosta sem ser sozinha. e com tudo à volta em silêncio. de preferência, com os fones postos. e deitada na cama, ou no sofá, ou no chão. X faz muitas coisas ao mesmo tempo. mas não tem tempo para tudo. e, por isso, às vezes, passa demasiado tempo longe do mundo da rua. e, às vezes, até longe dos amigos de sempre. mas eles já sabem como X é. e sabem que X volta sempre. porque na realidade nunca está longe. X está sempre ligada. e quando está em carne e osso está mesmo de verdade. X não finge. nem no blog, nem lá fora.)
(...) something within me... wants to break free... I swear, Master, to eternally adore the two goddesses; Muse and Liberty.

Carta a Théodore de Banville, maio, 1870 - Arthur Rimbaud
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tive de me organizar. em não havendo critério teve de se inventar um: física no monte da esquerda, teosofia no do meio e poesia logo à direita - bem ao alcance da mão. estou quase a chegar ao Manjit Kumar. é só despachar as últimas páginas do Michio Kaku. e começar e acabar o Paul Davies. o Rilke está a olhar de esguelha mas hoje é o Rimbaud o escolhido para partilhar comigo a cama. oh tempo, cresce!

15.9.11

há já alguns anos, X tinha uma vida diferente. em um dos episódios bonitos dessa vida, X conviveu com algumas pessoas muito interessantes. X era assim ainda pequenita e novinha e, um dia, numa missão de trabalho, viu-se dentro de um autocarro no meio dos grandes nomes do jornalismo ligado à gastronomia e à cultura nacional. X sentiu-se um micróbio. mas o chefe de X à altura, que era louco, vá-se lá saber porquê, levantou-se, abriu os braços e berrou - "descobri uma grande jornalista"- X, portanto. ora X nunca foi jornalista, mas quando era pequenina dizia que queria ser. e pronto, lá foi calhar ao meio, sem saber muito bem como. mas essa parte da história não interessa nada. o que interessa é que X nesse momento, e por acaso (e os acasos não existem, já agora, mas no momento não me ocorre melhor expressão) estava sentada mesmo ao lado de um senhor, assim já com alguma idade, que X não conhecia de lado nenhum mas com quem simpatizou desde o primeiro segundo. esse senhor, por causa das palavras do ex-chefe louco, começou a falar com X. X já não se recorda da conversa toda, mas sabe que durou a viagem inteira. e que falaram muito de cinema - X veio depois a perceber que o senhor até fazia crítica de cinema num jornal do norte, embora nunca tenha lido nada do que ele escrevia acerca do assunto. de qualquer modo, X sentiu-se meio ignorante porque de cinema não percebia assim tanto como isso, embora na altura até passasse bastante tempo no King e no Quarteto. e, palavra puxa palavra, no fim da viagem X e o senhor simpático trocaram contactos. e o senhor prometeu que escrevia. e escreveu. passados uns dias, X recebeu uma carta acompanhada de uma garrafa de vinho da Ilha do Fogo - o senhor também era crítico de vinhos. e durante algum tempo X e o senhor trocaram algumas mensagens. hoje, X voltou à caixa de correio antiga e reencontrou-as. falavam, sobretudo de filmes que ambos tinham visto - trocavam opiniões, na altura, por exemplo, sobre o Mystic River que nas palavras dele era "belo e corajoso". e falavam de escrever. X tinha descoberto a paixão pelas palavras. e como se sentia bem quando escrevia. e como não conseguia explicar essa sensação a quem não o fazia também. não se consegue explicar o porquê de escrever. ou o porquê de escrever de determinada forma. escreve-se. pronto. X e o senhor falavam muito sobre isso. e quando X teve de mudar de vida, o senhor disse-lhe assim "X faças o que fizeres, nunca páres de escrever. escreve sobre tudo e em qualquer lugar, mas escreve, escreve, escreve...". estas foram as últimas palavras que X leu do senhor. entretanto os destinos descruzaram-se. até hoje, dia em que X recordou esses tempos tão intensos. e essa amizade que durou tão pouco mas foi tão bonita. hoje, depois de reencontrar essas mensagens, X foi procurar saber o que teria acontecido ao senhor simpático que encontrou numa viagem algures no Douro. José Gomes Bandeira faleceu em 2006. era jornalista do JN mas, para além disso, era um ser humano incrível. X verteu duas lágrimas.
sinto-me no meio de um triângulo. e juro que não sei o porquê. mas sinto-me no meio de um triângulo. e eu não lhe vejo as esquinas, mas sinto-me no meio de um triângulo.
e, ainda assim, não deixa de ser irónico que desde manhã cedo X esteja dedicada a coisas que têm a ver com substâncias explosivas e radioactivas... é que X está assim desde que acordou - prestes a rebentar qualquer coisa!
e às vezes também escrevo sobre sexo. embora só muito vagamente me interesse escrever sobre sexo. concluo, portanto, que sou mais Anais Nin do que Henry Miller. (ainda bem, o Henry Miller é mau que dói.) gosto da subtileza. é isso, gosto da subtileza. ainda que esta venha enrrolada em lençois suados ou esquinas escuras. na verdade, não me interessa particularmente escrever sobre sexo. interessa-me mais o antes. ou o depois. mas, às vezes, também escrevo sobre sexo. ainda que seja mais Anais Nin do que Henry Miller.

é algo curioso ficar sem telefone, perder todos os contactos e pedir que os mandem de novo, quando acordamos pela manhã e abrimos o email, as muitas de respostas que recebemos de imediato são quase todas daquelas pessoas de mesmo muito longe. a proximidade às vezes mata. a distância por vezes conserva. mas nenhuma destas versões .
"pega em duas tripas. dá-lhes um nó. e experimenta correr descalça a seguir." com o distanciamento do hoje, posso dizer que esta foi a descrição de um sentir mais visceral, mais bonita e, também, mais cruel que me fizeram. e só me lembrei disto hoje, porque há noites com visões estranhas. mas, bom dia mundo que é e até sempre mundo que foi (embora, talvez, nunca com grande verdade).

14.9.11

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tem pose de nobre. ignora quase tudo e todos que a rodeiam. faz ar de frete se alguém a incomoda. e só fica mais ou menos empolgada quando vê latas gourmet que degusta com ares de gata fina. chama-se maria amélia, podia lá ter outro nome? sim, tem quase todos os defeitos da dona mas esta tem um nome bem mais plebeu.

13.9.11

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Some things I loved have vanished. A great many others have been given to me.

Simone de Beauvoir



"If you are only moved by colour relationships, you are missing the point. I am interested in expressing the big emotions - tragedy, ecstasy, doom"


Mark Rothko


eu tenho uma paixão desmedida pelo trabalho do Mark Rothko, pela personagem do Mark Rothko e pela profunda violência das cores do Mark Rothko. mas só trouxe este assunto agora aqui porque a experiência que eu tenho ao olhar para quase tudo o que o Mark Rothko fez é equivalente à parte minúscula que eu percebi da descrição da teoria das pontes de Einstein-Rosen.
(curiosidade: neste blog, às vezes, acontecem coisas meio estranhas. mas, ser seguido por alguém lá dos lados do oriente que está à frente de um blog ligado ao Falun Dafa (ou Falun Gong) até a X parece demasiado excêntrico. e quem não sabe o que é o Falun Dafa (e eu também não sabia) pode ver aqui. de qualquer modo, visto assim por alto, o Falun Dafa interessou a X. e X promete que vai pesquisar mais sobre o assunto. embora desconfie que a filosofia da coisa não seja muito diferente de todas as outras que X já vai reconhecendo. é que afinal de contas, todos dizem mais ou menos o mesmo. até porque o Todo é uno. digo eu.)
desde há alguns anos que X tem um ritual que cumpre religiosamente todos os dias - acorda, levanta-se, ainda com os olhos meio fechados liga o mac, vai às páginas do Expresso, TSF, Público e agora também "i". (ao Sol recusa-se pois X abomina alcoviteiras.) X não gosta particularmente de nenhum jornal português (com excepção do Económico), mas vai acompanhando - ainda que grande parte das vezes não passe do primeiro parágrafo. mas não gosta, sobretudo, de quase nenhum dos fazedores de opinião da praça quase todos comprometidos com coisas miudinhas. por isso vai também espreitar, pelo menos, o Economist, a Al Jazeera e a Foreign Policy. quase sempre depois de ler os títulos fica meio arreliada, vai direitinha tomar uma enorme chávena de café e fuma o primeiro cigarro do dia. normalmente está bem disposta. X está quase sempre bem disposta pela manhã. apesar de tudo. mas normalmente pensa, também, "foda-se que o mundo qualquer dia rebenta de vez". foi exactamente isto que aconteceu hoje. e imediatamente a seguir X pensou que se o Prozac fosse substituído por Helena Blavatsky talvez o mundo tivesse uma solução mais rápida. vá, os mais corajosos podiam aventurar-se no Rudolf Steiner. ou, quem não tiver paciência para o senhor, pelo menos podia deter-se no Krishnamurti que algures disse mais ou menos isto: "podemos ir muito longe se começarmos perto. (...) temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo." e quem não tiver paciência para nenhum dos três podia apenas plantar flores, ou observar pássaros, ou olhar nos olhos de com quem se cruza na rua. e sorrir. sobretudo para os desconhecidos.


o mundo não vai acabar. mas o calendário Maia acaba mesmo em 2012. e bem do alto da minha profunda impaciência eu digo "foda-se, já é tempo de abrir os olhos".