13.7.12

alguns episódios surreais da vida de x:

chegar a casa, abrir a porta, ouvir uma rajada de AK47 na rua, alguém dizer "baixa-te baixa-te não vá entrar uma bala pela janela", ficar encostada a uma parede uns minutos a ver se passava e, quando passou, ouvir algo como "pronto já podemos jantar".

ir num fiat uno podre numa rua escura, ficar sem luzes e sem travões ao mesmo tempo que o polícia nos manda parar e quase atropelar o homem. olhar para trás enquanto tentávamos fazer parar o carro e ver o polícia de AK47 em punho a correr atrás de nós. ver por fim a arma enfiada na janela e o polícia dizer "ela não leva cinto".

viajar de barco com o mar picado, quase ser lançada borda fora por causa dos saltos e, durante mais de 1 hora, pensar "ai que é hoje que morro" enquanto me agarrava com unhas e dentes a uma corda. 

cair ao rio tejo, não saber nadar e ser salva pelos bombeiros.

andar à porrada com umas gang-leaders no bairro alto e partir-lhes a cara toda.

espetar com um saco de bifes a um carteirista na praça da figueira e obriga-lo a devolver-me o telemóvel. tudo sem tirar os óculos escuros.

ameaçar um agarrado com a sua própria seringa.

chegar ao carro pela manhã, vê-lo coberto de sangue, ir à esquadra e o polícia perguntar "tinha algum corpo no carro?".

ser investigada pela PJ por suspeitas de colaborar com uma rede ligada a terrorismo.

perder-me em Christiannia.

acordar de manhã e ver malta dos GOI pendurada no prédio da frente com snipers posicionados no telhado e tudo. ser depois escoltada até ao meu carro por um agente a cobrir-me a cabeça.

atravessar parte do mar do norte com um sueco de 2 metros e bêbado com a cabeça pousada no meu colo sem que me pudesse mexer e ser depois salva por um ciclista italiano.

ganhar uma viagem à Índia paga pela sumol-compal.

estar no alto das dunas da ilha de Bazaruto.

correr à frente de uma vaca no Gerês.

ser parada pela polícia Sérvia no alto de uma montanha, ver o carro ser revistado e ouvir os polícias perguntar "drugs, drugs, drugs?".

chegar à fronteira do Montenegro, um polícia saltar do seu posto depois de ver o meu passaporte e dizer "Cristiano Ronaldo".

ver gente correr com colchões às costas depois de um alerta de tsunami.

passar uma noite naquela que devia ser a pensão mais tétrica do Porto.

ficar com o carro pendurado num muro e ser salva por um pastor com um pé de cabra.

ver um leopardo a correr, ficar histérica e dizer "olha, um tigre de pintas".

12.7.12

de maputo: está um bocadinho frio.
de maputo: sobretudo, gosto de falar e de estar com as pessoas mais simples. as mais desprotegidas. as que trabalham a troco de ordenados que nos fariam corar de vergonha. são essas que me enchem de esperança na mudança. a dignidade delas é incrível no meio de tantas dificuldades. e o sorriso é largo. e a força de vida gigante. os ricos de cá, são iguais aos ricos de todo o lado.
de lisboa: recebi duas mensagens de pessoas completamente distintas e que fazem parte da minha vida por motivos absolutamente díspares dizendo ambas "tenho saudades tuas". se por um lado isso me parece estranho porque eu não sei bem o que é sentir saudade, por outro faz-me pensar na forma como a nossa vida se encruzilha com a dos outros.
de maputo: não sei exactamente que forcas telúricas se escondem nesta terra, mas em estando cá só me apetece abracar as pessoas na rua e ser feliz com elas.

11.7.12

é engraçado estar a 10.000 km e receber telefonemas das pessoas com quem trabalho todos os dias pedindo-me opiniões, dando-me satisfações, comunicando-me o andamento das coisas, pedindo que corrija, que aprove, que sei lá que mais... e no fim mandam beijos e dizem "não te atrevas a querer ficar aí". é engraçado...

10.7.12

o dia começou bem. acordei com uma luz imensa a entrar pela janela. no caminho para o escritório, disse bom dia a dezenas de pessoas. todas respondem. todas sorriem. todas agradecem. sinto-me bem. não ando. flutuo por entre as árvores imensas de colorido. chego ao escritório e vou directa à copa buscar o meu café. trabalho trabalho trabalho. rio pelo meio. converso com as pessoas. rio mais. almoço com um velho colega de histórias. rio mais. recebi uma má notícia vida de longe. fiquei sem palavras. voltei ao escritório. mais trabalho. o ritmo é frenético. o tempo escasso. ao fim do dia, rever velhos amigos. parece que foi ontem. a ligações não se quebram. uma preta e camarões para celebrar a amizade. amanhã há mais. maputo é bonita. já disse?

9.7.12

voltar a maputo é sempre algo entre o difícil e o ansiado. mas desta vez sentia algo diferente. um certo medo, creio. medo de reviver, apenas. não gosto de voltar onde já fui. é isso. cheguei a maputo já muito tarde. mal pus o pé em terra firme percebi porque me diz tanto esta terra - o sorriso, a simplicidade, a afabilidade e a tranquilidade dos moçambicanos transmitem-me paz. fazem-me sentir em casa. e feliz. alguém me esperava no aeroporto, pacientemente. e foi bom voltar a ver caras conhecidas. e foi sobretudo bom voltar a sentir que moçambique me é tanto. maputo é uma festa de cores em forma de flores inexplicáveis. e de sons de grilos à janela. de estrelas que não acabam. de sorrisos espalhados. e de "bons dias" atirados à sorte. hoje voltei a ser aquela menina pequenina que chegou em tempos de tótós empinados e olhar triste. e com um coração vazio e sedento. que foi depois tratado com este calor de gente. com este imenso horizonte que nos ensina que os limites são só definidos pela nossa vontade. aqui falaram-me aos ouvidos. e disseram "sabes x, as lágrimas não nos podem afogar."
corria o verão quente da década de 70 quando, exactamente neste dia, eu chegava ao mundo. 

até agora tem sido bonita a festa pá!

8.7.12

em Maputo. em casa.

2.7.12


Sigur Rós - Rembihnútur

a paz e a dor lancinante. e como uma precisa da outra para ser.
não, isto não é um disparate.


às vezes acho que fiz tudo mal.
mas quase sempre tenho a certeza que não faria nada diferente.
salvo algum imprevisto, daqui a dias estarei de volta àquela terra doce e amarga que me arrancou o passado. espero voltar com mais um bocadinho de qualquer coisa. falta-me algo. não sei bem o quê. mas falta-me algo. e lá eu costumo ouvir as vozes que por cá se silenciam com a rapidez dos dias. e como preciso ouvi-las de novo.

28.6.12


Sigur Rós - Varud

tentei fugir-lhes. mas não consigo.
tocam-me a alma como quase nada mais consegue.

26.6.12

sonhei-te. e acordei gasta.

22.6.12

a vida de x: na verdade é,  quase sempre, meio aborrecida. e curta em tempo sem horas. por isso, x está em falta com meio mundo. com cafés atirados para um futuro que se queria próximo, mas que se vai alargando em distância. e com algumas vontades adiadas. o desligamento do mundo é, por isso, quase inevitável. x não gosta. mas não consegue fazer melhor. x anda cansada. dos dias e das gentes. mas anda feliz. e satisfeita com o que lhe caiu em sorte. mas a vida x também tem reveses. x, às vezes, desilude-se. mas depois diz para si "estás a ver x, nem sempre é paranóia tua. há pessoas mesmo más. ou só imbecis. mas vai dar mais ou menos ao mesmo, não vai?". mas a vida de x também tem pessoas boas. várias. e muitas surpresas. e, por entre altos e baixos, x vai andando. de cabeça erguida e sorriso nos lábios. 
confirmado. aniversário em maputo. como há exactamente 5 anos. de volta ao sítio onde aprendi que o chão não faz falta. para celebrar o dia em que nasci. e os dias em que recomecei do nada.

18.6.12


Sigur rós - Fjogur píanó

do amor e da dor.
do desejo canibal e da elevação do espírito.
do sentir na alma e na carne.
do sobreviver ao caos e querer mais.

15.6.12

bem, na verdade o que custa é a bofetada inicial. o perceber que as pessoas são ridículas. e que o ridículo nos revolve o estômago e, literalmente, nos leva ao vómito. aconteceu de novo. e sim, revolveram-se-me as entranhas e, literalmente, fui ao vómito. mas acordei a rir. e de certa forma em paz com o ridículo do mundo. embora com uma vontade imensa de fazer como jesus cristo com os vendilhões do templo. mas eu é que sou parva porque os sinos já tinham tocado a rebate. lembrem-se: quando as frases são as mesmas a história repete-se! é simples não é?

(já agora, isto não tem nada a ver com o post anterior. esse  não me revolveu as entranhas, só me fez rir. bom, e também me fez pensar que se calhar ainda estou ai para as curvas.)
percebemos que somos assim a dar para o antigo (e que andamos bastante afastados da realidade da noite lisboeta) quando somos convidados para uma grande rebaldaria por um casal de namorados com metade da nossa idade (ainda por cima giros os dois) e a nossa única reacção é ficar de boca aberta e pensar como sair discretamente sem fazer em demasia figura de parolos enquanto não nos sai da cabeça que naquela idade os moços deviam era estar a ver resmas de arco-íris e malmequeres e borboletas e tal...

14.6.12

às vezes tenho pena de ser assim. de não confiar. de esperar sempre o pior. e, por isso, de não deixar que me tomem por dentro. de pôr muros. mas a vida tem-me ensinado que as pessoas são extraordinariamente prevísiveis. e rarissimos são os casos que me surpreendem. os outros só me arrancam um sorriso triste. e um pensamento imediato: mais do mesmo. de qualquer forma, a decepção continua a ter o mesmo sabor amargo. e a causar-me convulsões de nojo. mas continuo a tentar convencer-me repetindo uma frase em silêncio: a náusea vai passar. a náusea vai passar. a náusea vai passar.

enfim...

29.5.12

dormi com fantasmas. e voltei a casa. sim, a essa casa onde as paredes encolheram espremendo-nos as forças. a essa casa cujos acessos se desenham quando os corpos se tocam. ou quando as almas se procuram. a essa casa que, apesar de tudo, detesto saber que existe. a essa casa que odeio por saber que é a única de onde não posso fugir.

23.5.12

por entre a pressa dos dias que se tornam curtos apesar das longas horas, 

decidi voltar à vida. 

10.5.12

tenho saudades de viver livros. 

4.5.12

(segredo, ou mais ou menos qualquer coisa do género: a julgar pelo que tenho de aturar via seoul, pyongyang deve ser pior do que o inferno!)