rasguei-te a pele com os dentes,
mordi-te coração e cuspi-o,
limpei a boca e segui.
17.1.18
“Love is an adventure and a conquest. It survives and develops like the universe itself only by perpetual discovery. The only right love is that between couples whose passion leads them both, one through the other, to a higher possession of their being. Put your faith in the spirit which dwells between the two of you. You have each offered yourself to the other as a boundless field of understanding, of enrichment, of mutually increased sensibility. You will meet above all by entering into and constantly sharing one another’s thoughts, affections, and dreams. There alone, as you know, in spirit, which is arrived through flesh, you will find no disappointments, no limits. There alone the skies are ever open for your love; there alone lies the great road ahead.”
“Love is an Adventure”
by Pierre Tielhart de Chardin
16.1.18
entre correrias por continentes distintos, doenças, má fortuna, imprevistos vários, cansaço generalizado e falta crónica de tempo e vontade, x não pegava em livros há muito. os de um autor em particular x deixou invisíveis durante anos, escondidos por outros que permitem a x distanciar-se mais daquilo que durante muito tempo x quis evitar a todo o custo. mas ontem x chegou a casa com um enorme reboliço por dentro. e depois de jantar sem grande vontade, em vez de se enrolar no nada como tem sido hábito nos últimos tempos, x dirigiu-se à estante e afastou os livros que camuflavam o resto. no fundo da estante, x reencontrou-se com os livros do rudolf steiner, deliberadamente apartados da vista há muito tempo. x pegou naquele que estava a chamar por si. leu cerca de 100 páginas de um sopro e adormeceu agarrada a ele. há algo de novo na vida de x, embora x não saiba ainda o que é. x não sabe se o rudolf steiner lhe vai dizer o caminho. mas ontem soube-lhe bem a sua companhia.
15.1.18
Sigur Rós - Hrafntinna
porque não há nada como sigur rós. absolutamente nada.
há dias em que uma força vinda de longe nos cobre o corpo e nos esmaga. e o ar falha-nos. x viveu assim em permanência durante demasiado tempo. depois adormeceu. mas agora está a ressurgir tudo de novo. e de forma avassaladora. x sabe que tem uma porta aberta para um mundo fora de cá. mas evita cruza-la. do outro lado é tudo demasiado. mas x sabe que quando os sentidos se misturam, quando o corpo parece pequeno para tudo o que nos vem, quando os olhos se perdem num horizonte que não é este, quando a mente fica frenética enquanto a boca se fecha, quando o peito parece explodir... é porque chegou a hora de enfrentar, de novo, esse sítio. talvez x consiga compreende-lo agora um pouco mais.
12.1.18
Sigur Rós - Á
quando x se sente em nó por dentro, volta aqui. e ali mais ao menos a partir do terceiro minuto, o peso que, de quando em vez, a consome por dentro, começa a desenlaçar-se. os olhos abrem como que estivessem a ver cores pela primeira vez. o rosto ilumina-se. os braços parecem abrir-se em forma de asas. e x resgata-se das trevas onde amiúde cai. quando acaba, x brilha. e mal consegue conter uma espécie de riso infantil que lhe invade a alma. a ouvir isto, x volta à casa de onde nunca quis sair.
Sleeping at last - North
não me agradeças nada. pudesse eu e faria, de novo, um festim com o teu sangue, dançando em cima do teu corpo ao som de urros bárbaros.
5.1.18
x entra todos os dias na sala que partilhou durante anos com a amiga cuja doença levou. o nome da amiga de x continua marcado na porta. a mesa está vazia e, supõe x, assim se manterá por bastante tempo. a amiga de x desapareceu. mas os objectos, os papeis marcados com a sua caligrafia, os livros, as fotos... isso tudo, por enquanto, mantém-se neste plano físico em que estamos. a amiga de x desapareceu. para sempre. mas os dias correm iguais. e há uma estranha normalidade no ar. e essa estranha normalidade deixa x profundamente agoniada.
4.1.18
x não sabe se é só ressaca dos últimos tempos ou se é a crise da meia idade a ficar apurada. mas a verdade é que hoje acordou com a sensação que quase nada faz sentido e com vontade de mandar tudo para o caraças e mudar-se para outras paragens. x tem balançado em demasia entre a sua natureza nómada e a necessidade de paredes. as paredes têm vindo a perder importância, contudo.
3.1.18
Sleeping at last - Saturn
with shortness of breathe, I'll explain the infinite
how rare and beautiful it truly is that we exist
28.12.17
Surma - Hemma
porque a música é a única coisa que tira x do escuro.
27.12.17
há muito tempo que x não assistia a uma missa. x não sentiu deus, nem fé. x sentiu apenas as lágrimas a lavar-lhe a cara. e culpa por não ter dito mais vezes "gosto muito de ti".
a amiga de x que estava doente, já não está doente. adeus minha querida.
22.12.17
Olafur Arnalds - Only the winds
x começou 2017 zangada. cansada. farta. a rebentar de tudo. tudo. quase se despediu. berrou. zangada. muito zangada. depois tirou férias.
passou dias de inverno a olhar o mar. acalmou.
preparou o seu relatório de avaliação e não se coibiu de fazer críticas que poucos ousam fazer. foi ouvida. e acabou por ser "promovida".
foi a maputo participar numa conferência internacional. reencontrou pessoas. redefiniu prioridades.
decidiu não se incomodar em demasia com coisas que não está na sua disponibilidade mudar.
partilhou casa com três pessoas diferentes.
acolheu uma pessoa nova na sua vida. essa pessoa acabou a fazer a vida de x num pequeno inferno por alguns momentos. descartou essa pessoa sem grande piedade. percebeu que há malta que é mesmo descompensada. e perigosa. pôs uma pedra em cima desse assunto e alertou toda a gente que essa pessoa não batia bem dos cornos. continuou a sua vida.
inscreveu-se na pós-graduação que há muito queria fazer. passou uns meses em corridas entre o escritório e a faculdade. teve muito pouco tempo para estudar.
perdeu saúde. viu as suas dificuldades respiratórias agravarem-se brutalmente. chegou a um ponto que já não conseguia andar, subir escadas ou mesmo falar sem ficar com falta de ar agonizante. até que um dia disse "chega". e decidiu avançar com a operação que adiava há anos. conseguiu organizar tudo em tempo record e foi operada pouco mais de um mês após ter tomado a decisão. não teve sequer muito tempo para pensar no que podia correr mal. passou uma semana em casa com a cara inchada e os olhos negros. mas recuperou.
foi indicada para um curso de liderança no magic circle em londres. fez o curso entre os melhores dos melhores do ramo. voltou a correr de londres. trabalhou que nem um burro de carga.
cumpriu um sonho de há anos e viajou pela islândia. encontrou amigos novos. viu das paisagens mais bonitas do mundo. espantou-se. andou pelas ruas coloridas de reykjavik. andou em cima de glaciares, de montanhas, vulcões, praias de areia preta e ondas revoltas, por baixo de cascatas, dentro de grutas. riu. foi feliz. saiu da islândia com muita vontade de voltar rapidamente.
voltou a portugal. fez férias nos seus sítios de sempre. apanhou sol. acampou. passou tempo com a família. mimou a sobrinha. mimou muito a sobrinha.
voltou a maputo. passou duas semanas extenuantes a trabalhar com a equipa local.
voltou. cheia de planos e com vontade de mudar o mundo. percebeu que o mundo, às vezes, custa a ser mudado.
ficou com o carro parado na auto-estrada no dia em que o carro não podia ter ficado parado na auto-estrada. passou-se. decidiu comprar um carro novo. teve dúvidas. vacilou entre comprar o carro que queria há muito e comprar uma coisa menos burguesa.
alguém lhe disse que tinha de pensar mais em si e que estava na hora de se mimar. e que se alguém merecia comprar o carro que queria era x. e x, então, percebeu que sim - nos últimos anos preocupou-se mais em dar aos outros do que realmente tratar de si. decidiu comprar o carro. comprou-o.
decidiu, também, tratar de si. passou a ser acompanhada por uma equipa médica multidisciplinar para perceber o que se passa com o seu corpo, que às vezes dá sinais estranhos. descobriu que tem a tiróide mais dilatada do que já é e que vai ter de tomar medicação para essa treta. não é grave. mas vai ser resolvido.
começou a fazer caminhada. e viu aos poucos o corpo a começar a reagir. passou a gostar de andar. e de ver a cidade com os pés.
respondeu a situações de emergência social. e ajudou com o que pode uma mãe e uma criança desamparadas.
ajudou a construir e concretizar sonhos. falta um - que só está pendente por questões que x não consegue resolver sozinha.
viu a amiga doente piorar de dia para dia. agonizou com a degradação física e mental que se revelaram irreversíveis. espera, em silêncio, o dia em que receberá a notícia que não quer receber. espera. em silêncio e com uma dor escondida.
x teve um ano difícil. mas conseguiu concretizar coisas que há muito desejava e que em tempos idos pensava ser impossíveis.
x concretizou o que estava ao seu alcance concretizar. porque há coisas que não vale a pena adiar. a vida acaba num plim. enquanto cá estamos aproveitemos aquilo que temos. e partilhemos o que seja possível partilhar com os outros.
e, entre lutas, derrotas e conquistas, chegamos quase ao fim do ano. x está menos zangada do que no início. e menos cansada. e menos desacreditada. e mais apaziguada, talvez. e, sobretudo, com a certeza que a vida corre desaustinada à nossa frente. tenhamos capacidade de a acompanhar. e de aceitar que, às vezes, não nos cabe a nós decidir o caminho.
boas festas. e sejam felizes.
21.12.17
Birdy + Rhodes - Let it all go
porque hoje x teve vontade de sons diferentes.
Wolf Larsen - If I be wrong
What if I’m wrong, what if I’ve lied What if I’ve dragged you here to my own dark night
20.12.17
José Gonzalez - Stay Alive
quando x se lembra de ouvir isto é porque por dentro se anunciam flores.
19.12.17
hoje, x foi almoçar - sozinha - ao sítio onde tantas vezes almoçou - entre gargalhadas e planos cheios de futuro - com a amiga que está doente. x sabe que - pelo menos neste plano de espaço-tempo - esses almoços cheios de risos não vão voltar a acontecer. e hoje, ali sozinha, x sentiu um vazio gigante e uma impotência incomensurável contra a crueldade da vida.
18.12.17
de vez em quando, oiço-te à rectaguarda. embora sem palavras, dizes, quase sempre, em desespero "não te esqueças". mas desde há muito que ignoro o teu pranto silencioso. e sigo em frente. sempre. não esquecerei. nunca esquecerei. por isso corro para alargar a distância. fica ai. no sítio onde escolheste estar. e deixa-me ir para onde eu escolhi ir. não te posso esconder do ontem. mas o amanhã é meu. e tu não fazes parte dele.
1.12.17
x cumpriu vários sonhos em 2017. falta só um.
x espera que até ao final do ano esse esteja, também, cumprido.
haja saúde!
Hello Evoque!
29.11.17
x teve hoje o seu maior delírio burguês de sempre. e comprou (ou melhor, ainda não comprou mas está quase...) o carro que queria há muito. ficou com algum peso na consciência de "aí e tal tanta gente a morrer de fome no mundo e eu a comprar um carro burguês..." mas depois alguém lhe disse "foda-se pá, trabalhas que nem um cão, se alguém merece és tu!". e pronto, plim!
1.11.17
a doença da amiga de x entrou num rumo sem volta. é triste, muito triste.
30.10.17
Major Depressive Disorder, MDD, ou simplesmente depressao. Diz a neurologista que x tem isso. Apesar de não se sentir triste. x só se sente irritada em permanência. E troca palavras, está meio dislexica, tem a memória em farrapos, dificuldades de concentração, impaciência, apatia, falta de força, discurso baralhado, cabeça bamba e enevoada...mas, sobretudo, irritação, muita irritação. x tem uma vida boa, e não tem razões de maior para estar deprimida. O que faz mal a x são as pessoas mas com que x se cruza na vida. E x tem-se cruzado com várias. Demasiadas, na verdade. A prescrição: meio comprimido de um antidepressivo multimodal durante 6 meses e exercício físico. A ver se isto vai ao sítio que x já nem paciência tem para estar doente.
x passou os últimos 15 dias em mocambique. x chegou cansada. mas feliz. Africa faz bem a x.