30.9.11

(coisas que ocorrem a X à hora de almoço: X não é dada a depressões nem tem problemas de auto-estima. X gosta do que faz e não tem problemas com chefes ou colegas de trabalho. X não tem particular aversão por segundas-feiras, nem especial euforia com sextas. X não é dada a doenças e só faltou uma vez ao trabalho por causa de um ataque de rinite fulminante (mas isso foi antes de descobrir os comprimidos maravilha). X não tem pachorra para intriguisses nem para o mal-dizer. mas X também não tem qualquer problema em dizer exactamente o que pensa a quem quer que seja. X não se preocupa em ser politicamente correcta e não tem medo de consequências que daí advenham. X não faz fretes e não tem problemas em dizer "cala-te estás a aborrecer-me de morte". X quase não vê televisão e não conhece quase nenhumas das caras que aparecem nas revistas. por isso, X, quase sempre, sente-se muito deslocada nas conversas e, às vezes, chega a pensar que não deve ser muito normal.)
hoje fui espreitar o ano de 2008. encontrei este texto que foi escrito no meu dia de anos. revivi todos os segundos que passaram por mim enquanto o escrevia. e percebi que apesar de ter muitas vezes vontade de acabar com este blog, provavelmente, nunca o conseguirei fazer.

Um dia acordamos e tudo desapareceu. Nada é. Nada está. Vácuo. Só. As vozes misturam-se num interminável curso de sons imperceptíveis. Fingimos perceber. Fingimos estar. E fingimos ser o que alguém espera que sejamos, sem saber exactamente o que é isso, pois não sabemos nem quem somos, nem quem são os outros. Tentamos agarrar-nos a coisas que nos pareçam ligeiramente familiares. Tentamos olhar-nos no espelho e encontrar uma réstia de semelhança com a ideia que faziamos de nós. Mas, nada. Nada. Nada. Pedimos em silêncio que nos puxem de volta. (Parece sempre mais fácil voltar ao que se sabe do que enfrentar o que se não conhece.) Mas o abismo acena-nos promessas de tudo. E vamos. Brincam-nos com a cabeça depois. Arrancam-na. Fazem malabarismos perigosos. Voltam a pô-la no sítio por breves instantes. Mas é só para termos a certeza que nada é do que já foi. Voltam a arranca-la. E isto acontece sempre, sempre, sempre. Até percebermos que não somos nós que controlamos o movimento de vai e vem. Depois perdemos tudo. Mesmo o que antes parecia enterrado até ao centro da terra. Num plim tudo deixa de ser. Medo depois. Medo. Muito medo. Quem és tu que estás ai desse lado do espelho? Onde está o eu que tu roubaste? Confusão. Sons. Luzes. Risos. Lágrimas. Muito de tudo. E tudo muito. E, ao mesmo tempo, um vazio. Cheio. Um vazio cheio. É isso. Um vazio cheio. Descontrole. Alucinação. A certeza que a vida como era nos foge. Levam-na. Roubam-na. Mas enfim passamos a sentir tudo. Como antes não ousavamos sequer pensar que fosse possivel. Sentimos tudo. Bom e mau. E tudo lá, naquele sítio que dói e que faz rir. As palavras então saem disparadas por armas de arremesso perdidas algures no meio de nós. Ou então, ficam presas. E os lábios quietos. Xiuuu. Um dia, morremo-nos. Desistimos da guerra. Aceitamos que acabará ali. E que nada o pode impedir. Pomo-nos nas mãos de quem nos tolhe os movimentos. Dizemos que estamos à disposição. "Façam o quiserem! Eu não sou, não sei, não mando, não nada..." e pronto, morremos. E nesse exacto momento somos invadidos por um sopro quente de vida. Que nos entra pelos bocadinhos todos do corpo. Sentimo-nos levitar. Sim, sentimo-nos levitar. Sentimos os olhos encher-se de luz. Ficar transparentes. Mudar de cor. Passamos a ver à frente e atrás. Por fora e por dentro. Pelas margens e através. O coração bate. O peito enche-se. As lágrimas, essas, continuam a despedir-se de ontem. Misturam-se com o riso pela descoberta do plano onde o espaço e o tempo se misturam numa esquizofrenia de sentidos. Á nossa volta, luzes dançam. Vozes cantam. E dão-nos as boas vindas à terra de ninguém e de todos. Depois, renascemo-nos. Sem quase nada a ocupar-nos por dentro. Prontos a recomeçar. Mas agora num patamar acima. Crescemos um bocadinho mais em direcção a casa. Sabemo-nos no sítio certo. Mas ainda assim, às vezes temos saudades. No fim, o terror acaba. O dia volta. E passamos a perceber que entre a loucura e a iluminação a diferença é muito ténue.

9 de Julho de 2008

29.9.11

"(...) Com o mesmo entusiasmo, com a mesma certeza, com a mesma confiança, engajemo-nos ainda mais resolutamente no combate pela paz, pelo progresso, pelo bem-estar, pelo socialismo, pela felicidade.


A luta continua!

A Revolução Vencerá!

O Socialismo Triunfará!"


São as pequenas delícias de trabalhar com Repúblicas que já foram Populares - isto é ipsis verbis o final de documento que estou a consultar para um trabalho qualquer.

Mono - Pure as snow (trails of the winter storm)

28.9.11

acordei com vontades canibais. apetecia-me comer-te aos pedaços. lembrei-me então que não restou nenhum. lambi os cantos da boca. lavei os restos com água morna. vesti a pele dos inocentes. e saí à rua. o dia estava bonito.
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queria ser capaz de explicar como equilibrar a luz e o escuro. o céu e o inferno. o aqui e o além. não sou. mas sei que é possível. ainda que o equilíbrio seja frágil. e o processo seja lento. e a agonia seja imensa. vi-me renascer. e senti as dores do parto. a frio. a ferros. a fogo. mas valeu as penas. oh se não valeu todas as penas.

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Julianna Barwick - Flown

há calmas assim. desquietas. sê com elas. vai... entra na toca da Alice. e plim!
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"Sin is no longer your master, for you no longer live under the requirements of the law. Instead, you live under the freedom of God's grace."

The Holy Bible - Romans 6:14

27.9.11

não gosto de memórias. talvez por sempre ter tido tendência a não me conseguir desprender delas. por isso hoje não tenho nada no meu espaço com passado. hoje guardo apenas algumas coisas por dentro. e quase todas elas têm nome próprio. tudo o resto me parece acessório. na hipótese má é até incómodo. talvez por isso hoje não gosto de memórias. gosto mais do imediato. do que é. o que foi interessa-me pouco. ou quase nada. se foi e deixou de ser é porque já não importa que não seja. e se algum dia alguém quiser reconstruir a minha biografia terá dificuldade. da parte que diz quem fui há poucos registos. eu não guardo quase nenhuns. mas histórias há muitas. contudo terão de ser contadas em forma de voz de gente. daqueles cujos nomes próprios eu guardo. partilhamos algumas histórias. umas que já foram. outras que ainda são. e outras que esperam ainda para ser. mas as que já foram vão ser ainda no futuro. e as que ainda não aconteceram têm os pés no passado. são movimento. adiante e ao avesso. são ontem e hoje e amanhã. são aqui ali e além. mas isso não são memórias. são pedaços da nossa essência. de áfrica não guardo memórias. nem sequer saudade. de quem já fez parte da minha vida e já não faz não guardo memórias. nem sequer saudade. guardo isso tudo em forma de pequenos pedaços daquilo que sou hoje. sim, hoje não gosto de memórias. mas gosto de todos os pedaços que me são. e gosto de risos e abraços de gente de carne. tenho caixas por abrir. mas não me apetece. e já só me faltam queimar alguns papéis. já nada disso é meu. e tem tudo pó.

26.9.11




Joanna Newson - Does not suffice

(isto porque hoje me apetece música com sabor ao último copo antes do fim da festa mesmo antes das luzes se apagarem e ir toda a gente para casa)
"E quando tiveres tempo e vontade lê isto. Nem que seja uma frase de cada vez.

Esse é o caminho que tens de percorrer e que te vai tirar o que conheces e dar o que realmente precisas a seguir. Pelo meio, se te deixares de reconhecer - quer seja pelas coisas novas que sentes, pela forma diferente como vês os outros ou pelas necessidades novas que te aparecem - não te admires. É mesmo assim. Procura é interiorizar o que sentes e conhecer-te de verdade. Terás dúvidas, medos, e por vezes até podes errar no caminho, mas isso é mesmo assim. O caos, as dúvidas, o terror, o vazio, a sensação que uma bomba atómica te rebentou na cabeça e o pavor do desconhecido são elementos centrais nesse processo de crescimento. Mas esse é o caminho da paz."
"More than kisses, letters mingle souls."

John Donne


cruzei-me com esta citação no livro de cartas de Reiner Maria Rilke que estou a ler. mais do que os poemas do Rilke, gosto das cartas do Rilke. é ali que ele mostra a alma sem outro cuidado que não o de dizer o que pensa. diz-se que ele tinha imensa preocupação com a apresentação da própria carta. que reescrevia cada página quando havia gralhas. que eram imaculadas. podiam até ser, mas não é isso que me agrada nele. o que me fez apaixonar por Rilke foi a forma como ele via o mundo. e as palavras com que o descrevia. são imensas. são gigantes. são algumas vezes absurdamente simples. outras incrivelmente profundas. e Rilke via o mundo um pouco como eu. ou melhor, eu vejo o mundo um pouco como o Rilke. mas não é só por isso que eu gosto de quase tudo o que dele leio. é a intensidade das palavras que ele usa quando se dirige a alguém. mesmo que esse alguém seja, às vezes, não muito determinado. isto porque acho que muitas das cartas que ele escreveu, embora tivessem um destinário, podiam ser dirigidas a qualquer um de nós. e isto fez-me lembrar cartas e coisas que eu própria já escrevi. algumas dirigidas a pessoas concretas. outras a ninguém. e outras, se calhar, a mim própria. e sobretudo cartas e coisas que me escreveram a mim. e, por isso, confirmo a citação do John Donne - as palavras conseguem ter mais força do que os beijos. mesmo que sejam beijos muito bons. as palavras arrepiam-me. exaltam-me. tiram-me o ar. as palavras fazem-me sentir viva. ou a morrer. as palavras fazem-me rir. ou chorar. as palavras são a ligação mais real que eu tenho ao mundo. é sobretudo através delas que sinto. os beijos passam. alguns (ou quase todos) até se esquecem. mas as palavras não. essas ficam gravadas para sempre. e algumas ainda me doem. ou me fazem rir. mas sobretudo as palavras fizeram com que a minha alma se unisse a outras (poucas) almas. mesmo à distância. ou sobretudo à distância. e, para mim, não há verdade maior do que esta.
Sigur Rós - Von

eu não sabia. mas eles avisaram-me muito antes de saber que me havia de despedir. guardei-os com carinho e apertada por dentro. eu não sabia. mas o sítio onde os fechei haveria de ficar no escuro muito tempo. mas eu sabia que lhes ia voltar. há amores que não morrem nem que se queira muito. e hoje voltaram a soar em minha casa.


Sigur Rós - Svenf-g-englar


"without music life would be a mistake"
Nietzsche

25.9.11

"We are solitary. We may delude ourselves and act as though this were not so. That is all. But how much better it is to realize that we are so, yes, even to begin by assuming it. We shall indeed turn dizzy then; for all points upon which our eye has been accustomed to rest are taken from us, there is nothing near any more and everything far is infinitely far. A person removed from his own room, almost without preparation and transition, and set upon the height of a great mountain range, would feel something of the sort: an unparalleled insecurity, an abandonment to something inexpressible would almost annihilate him."

Reiner Maria Rilke - Letters to a young poet (no. eight)

(há uns tempos disse que achava que só havia relido 3 livros. mas a este (e a outros) volto muitas vezes. sinto-lhe todas as palavras.)
há muitas coisas de que eu não gosto. mas o que me mete mesmo nojo são escamas de peixe. odeio. para me causar mais nojo do que as escamas de peixe só mesmo gente má. ou desleal. e eu vomito mesmo se toco em escamas de peixe. por isso suponho que dá para perceber como a gente má ou desleal me revolve as entranhas.
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Warpaint - Shadows

Marissa Nadler - Leather made shoes

(não tenho palavras agora. isto ocupa-me tudo.)

24.9.11


é enternecedor. elas tinham uma mensagem colada no frigorífico que dizia "don't postpone joy". e não adiaram. e viveram felizes até ao fim. é enternecedor, repito.

23.9.11

X recebeu hoje uma mensagem de alguém de quem não tinha notícias há muito muito muito tempo. no meio da mensagem dizia algo como "descobri-te no google. já sei que és uma [profissão de X] famosa".

X estava a beber café quando recebeu essa mensagem, engasgou-se e quase se cuspia toda. a razão foi ter feito contas e ter percebido que (respira fundo X, respira fundo!) já se passaram 18 anos! é que a parte do "famosa" não é de todo verdade.
pior do que não respeitar grandemente essa coisa dos dress-codes é estar num local público com os chefes, incluindo o que dizem que é "mau", fazer um gesto assim tipo "hang loose" e deitar-lhes a língua de fora. pior ainda é ter um piercing na língua vai para sei lá quantos anos - do qual já não me lembro sequer - que quase nenhum deles conhecia. mas surpreendente, mesmo supreendente, foi ver o que dizem que é "mau" ter um ataque de riso, agarrar-me pela cintura, fazer-me dar duas piruetas e no fim pousar-me, dar-me um beijo na testa. se as pessoas fossem mais elas o mundo era tão menos aborrecido!
chegar a casa já muito noite e, no dia a seguir, sair de casa ainda muito noite tem as suas vantagens. por exemplo, (i) o trânsito é quase nenhum e (ii) conseguimos ter a paciência suficiente para ouvir o Michael Bolton na rádio pela manhã (embora ainda muito escura) e até fazemos uma versão "sing along" enquanto os semáforos não ficam verdes. sim, são 9.35 h e eu já estou nisto vai para 3 horas.

22.9.11

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a imagem não é desfocada por acaso. é assim uma espécie de alma penada que anda cá por casa. não deve ter sequer meio quilo, mas isto já está mais ou menos definido: a ala da frente da casa pertence a maria amélia; carlota joaquina domina a ala das traseiras. quando se encontram no corredor a coisa fica esquisita. mas hão de chegar a um entendimento qualquer. haja fé!

há muitos anos, quando acabei de ler "a morte em veneza", a quem me o recomendou com um efusivo "é lindo" eu respondi com um rosnar qualquer. nunca mais li nada de thomas mann. mas hoje, depois de um suspiro, agarrei "a montanha mágica". e esta é a prova que devo ser masoquista. logo tinha de escolher um que tem exactamente 832 páginas. e a primeira não promete, devo dizer.

21.9.11

hoje acordei em posição de anjo. a cama pareceu-me mais macia. e a roupa não se enrrolou no corpo. isso deve querer dizer que os pesadelos acabaram. é assim. um dia acordamos e nem reparamos que as imagens que nos ocuparam já não estão lá. foram todas devoradas pelo imenso céu lá de fora. e ele hoje não estava azul. estava assim em tons lilás. e havia daqueles confetis de festa a cair por todo o lado. suponho que seja uma forma irónica de celebrar o fim. ou a falta que essas imagens de sempre já não fazem. e isso é a mesma coisa não é? já disse que sol tem um brilho diferente? e que já não franzo a testa? talvez não. vou perdendo a memória. mas há um sítio escuro onde sei não querer ir. mas até para lá já esqueci o caminho. já disse que o céu hoje estava em tons lilás? e que havia daqueles confetis de festa a cair por todo o lado?