x não sabe bem porquê, mas nos últimos dias tem sido assaltada por memórias e dúvidas existenciais. na última semana, por várias vezes, x foi posta perante uma história mais ou menos recente, que podia ter terminado na trilogia clássica: casa, cão, filhos. não acabou assim. acabou de outro modo menos idílico, embora sem dramas. pelo menos, sem dramas para x. mas também acabou embrulhada em silêncios desconfortáveis. e algumas dúvidas. e algumas pequenas raivas disfarçadas. x perguntou-se algumas vezes o porquê de aquilo não ter avançado. x e a pessoa em questão davam-se irritantemente bem, riam muito um com o outro, o sexo era extraordinário, tinham muito da vida em comum. x podia ter aprendido a gostar da pessoa. porque x não gosta à primeira vista. x aprende a gostar. mas não aconteceu. e x até ontem perguntou-se porquê. a resposta que x encontrou foi esta - a pessoa em questão andava sempre dois passos adiante. x odeia que andem dois passos adiante. x gosta de passos sincronizados, ainda que paralelos em vez de decalcados.
rasguei-te a pele com os dentes, mordi-te coração e cuspi-o, limpei a boca e segui.
18.7.17
12.7.17
29.6.17
28.6.17
era o primeiro dia de viagem pela Islândia. logo pela manhã, cruzamo-nos com um grupo de holandeses. perguntaram-nos de onde vínhamos. quando dissemos "Portugal" os risos desapareceram. por segundos, estranhamos. depois disseram "que grande tragedia os incêndios que estão a acontecer!". nós não sabíamos de nada. fomos a correr ver o facebook. e lá estavam as notícias dramáticas. nao podíamos fazer nada para além de garantir que os nossos estavam bem. continuamos a viagem, e acompanhamos à distância. os números da morte a crescer, os relatos doridos a entrar-nos olhos dentro, a impotência... acompanhamos a distância, e isso custa. que saibamos todos reconstruir-nos depois do negro cobrir o país.
27.6.17
e x subiu montanhas, desceu montanhas, caminhou sobre pedras, e campos de lava, e chão fervente, e glaciares, e areia negra. e x caminhou quilómetros, subiu e desceu escadas, e trilhos de pedra. e x nem por um momento se sentiu cansada ou a asfixiar. a operação ao nariz funcionou, e x nunca se sentiu tão bem como agora.
foi tudo arrebatador. mas foi ao chegar a costa norte, debruada com algumas poucas praias negras e mar cinzento revolto, que x sentiu o estômago encolher. x sentiu que chegava a uma casa distante de onde há muito havia partido. x encolheu-se. e ficou em silêncio na expectativa de encontrar respostas. a única que lhe chegou foi que o mundo, por vezes, não é para compreender.
26.6.17
17.6.17
depois dias a fio sem fazer quase mais nada que não fosse trabalhar. x quase quase a ficar chéché. ainda assim conseguiu acabar tudo o que tinha para fazer. eram 2 da manhã quando x enviou o último email. são 4.17h da manhã. x está a fazer tempo para ir para o aeroporto. x teme piscar um olho e ficar a dormir durante três dias seguidos. falta pouco mais de uma hora para x estar no aeroporto. x jura que nunca mais marca voos de madrugada. foda-se!
15.6.17
13.6.17
10.6.17
4.6.17
3.6.17
28.5.17
e ao décimo primeiro dia resta uma pequenina mancha amarelada do hematoma por baixo do olho esquerdo e a cara ainda inchada mas já aceitável para sair à rua sem assustar ninguém. a dermatite passou, a pele escamou toda, mas agora parece pele de bebé. o nariz só estará completamente pronto daqui a mais ou menos um ano. por fora está diferente, sem parecer estar diferente. por dentro é completamente novo e respira. depois de seis dias úteis em casa, x volta ao trabalho amanhã. passemos à próxima aventura. esta foi um gosto!
18.5.17
x teve umas semanas duras de trabalho e andava fisicamente esgotada. por isso, x sabia que havia uma forte hipótese de não conseguir acordar às 6 da manhã para estar na clínica às 7. e x não acordou às 6h. acordou às 6.59h, talvez por intervenção da divina providencia. x saltou da cama num pulo, enfiou uma roupa qualquer, correu porta fora e passados 6 minutos estava a apanhar um táxi que foi a abrir até às avenidas novas. x entrou a correr na clínica às 7.20h, a operação estava marcada para as 7.30h. papeis assinados, roupa tirada, bata vestida, x cheia de sono - e, talvez, de remelas -, cateter para aqui, soro para acolá, questionários vários, fotos e, por fim, bloco operatório. x vê o aparato médico e fica assim entre o calma e o catatónica. depois ouve "bons sonhos". e plim, x dormiu. acordou cerca de duas horas depois, com uma voz que dizia "x, x, já acabou x. acorde x, correu tudo bem e o nariz ficou perfeito. lembre-se que tem o nariz tapado x, tem de respirar pela boca...". neste momento, x abriu um olho, e ainda sob efeito dos restos do propofol, disse "há 10 anos que quase só respiro pela boca, a modos que isso é o meu estado normal!". a anestesista riu e respondeu "caraças que respirava mesmo mal!". e depois de ficar umas horas no recobro, x voltou a casa, sem dores e sem mal estar de maior. segunda feira, x tira os tampões. se conseguir respirar, x vai chorar de felicidade. ainda por cima os cirurgiões disseram "e o nariz ficou muito bonito!". pronto, foi isto!
17.5.17
11.5.17
x tem tido tanto trabalho que tem andado em modo robot. entretanto, esqueceu-se de fazer alguns exames e teve de andar a correr para os conseguir ter em tempo para a cirurgia. pelo caminho o frigorífico de x morreu. é mais um pingarelho para resolver. para além desse x tem, também, de comprar uma cama nos próximos dias. e pagar a viagem à islândia. pelo menos já entregou o irs, e pagou o iva do primeiro trimestre. e a cirurgia. uma pipa de massa de uma vez. pimba! doeu. porra. bom, x está a trabalhar desde as dez da manhã. são duas da madrugada. pelo meio só parou para almoçar uma salada, beber dois ou três cafés, jantar uns ovos mexidos mal enjorcados, trocar meia dúzia de frases com os colegas de trabalho, mudar o som no youtube cada vez que aquilo insiste em passar radiohead, e ver dois ou três vloggers a falar do salvador sobral. x riu à gargalhada com alguns. foi, talvez, o momento alto do dia de x. x vai dormir. daqui a seis horas tem de estar pronta a ter mais um dia de cão.
2.5.17
sem contar, este fim de semana x cruzou-se com uma amiga de há muito mas que x já não via há anos. depois de um mau casamento, um mau divórcio e um pós-divórcio, talvez, ainda pior, x encontrou a amiga de há muito transtornada, cansada, profundamente triste e enfiada num buraco que parece não ter fundo. e, às tantas, depois de pouco tempo de conversa, x deu por si a pensar - de forma, talvez, um bocadinho egoísta - que tem uma vida incrivelmente tranquila e que não a trocava por nada.
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