rasguei-te a pele com os dentes, mordi-te coração e cuspi-o, limpei a boca e segui.
16.2.18
5.2.18
Gregory Alan Isakov - If I go, I'm going
x nem simpatiza muito com estas coisas do country folk, mas estas primeiras linhas conquistaram x:
This house
She's holding secrets
I got my change behind the bed
In a coffee can
I throw my nickels in
Just in case I have to leave
And I will go if you ask me to
I will stay if you dare
And if I go I'm going shameless
I'll let my hunger take me there
quando uma pessoa considera vender o seu apartamento - que está numa zona cobiçada do centro da cidade mas que começa a ser profundamente irritante - e comprar uma moradia rodeada de árvores e, para o efeito, pede uma avaliação e faz pesquisas de mercado sobre comissões de sociedades de mediação e afins, uma pessoa confirma que está, definitivamente, a ficar velha.
4.2.18
31.1.18
x está a ser acompanhada por uma equipa médica multidisciplinar por causa de alguns sintomas estranhos que vinha sentindo há uns tempos. depois de uma bateria de exames longa, hoje, finalmente, x teve consulta para discutir os resultados. a médica pegou no relatório e começou a descrever todos os sintomas que x sente há muito tempo. sem tirar nem pôr. estava tudo ali, naqueles números que a x não diziam praticamente nada. no fim, a médica disse "ah e você tem um feitio assim meio de gajo não tem?". x desatou a rir e disse "sim, desde que me lembro de ser gente, por isso essa parte não deve ter tratamento possível!". a médica prescreveu a medicação que x tem de tomar e daqui a dois meses - deus nosso senhor assim permita - estará tudo em vias de estar resolvido. menos a parte do feitio de gajo!
22.1.18
20.1.18
17.1.18
os livros de x:
x comprou-o há anos. começou a ler, mas na altura o corpo e a mente recusaram-se a continuar. há pouco mais de 48 horas x voltou a ele. e, de um sopro, leu-o de uma ponta à outra. para grande surpresa de x, apesar da linguagem quase hermética - e intencionalmente espiralizada (não é gralha, a palavra que x quer usar é mesmo "espiralizada", de espiral!) - x reconheceu-se claramente ali. por razões (talvez) mais físicas do que mentais, rudolf steiner sempre despertou impulsos pouco simpáticos a x. curiosamente, o próprio livro explica a razão de x lhe ter tido tanta aversão até agora.
“Love is an adventure and a conquest. It survives and develops like the universe itself only by perpetual discovery. The only right love is that between couples whose passion leads them both, one through the other, to a higher possession of their being. Put your faith in the spirit which dwells between the two of you. You have each offered yourself to the other as a boundless field of understanding, of enrichment, of mutually increased sensibility. You will meet above all by entering into and constantly sharing one another’s thoughts, affections, and dreams. There alone, as you know, in spirit, which is arrived through flesh, you will find no disappointments, no limits. There alone the skies are ever open for your love; there alone lies the great road ahead.”
“Love is an Adventure”
by Pierre Tielhart de Chardin
16.1.18
entre correrias por continentes distintos, doenças, má fortuna, imprevistos vários, cansaço generalizado e falta crónica de tempo e vontade, x não pegava em livros há muito. os de um autor em particular x deixou invisíveis durante anos, escondidos por outros que permitem a x distanciar-se mais daquilo que durante muito tempo x quis evitar a todo o custo. mas ontem x chegou a casa com um enorme reboliço por dentro. e depois de jantar sem grande vontade, em vez de se enrolar no nada como tem sido hábito nos últimos tempos, x dirigiu-se à estante e afastou os livros que camuflavam o resto. no fundo da estante, x reencontrou-se com os livros do rudolf steiner, deliberadamente apartados da vista há muito tempo. x pegou naquele que estava a chamar por si. leu cerca de 100 páginas de um sopro e adormeceu agarrada a ele. há algo de novo na vida de x, embora x não saiba ainda o que é. x não sabe se o rudolf steiner lhe vai dizer o caminho. mas ontem soube-lhe bem a sua companhia.
15.1.18
há dias em que uma força vinda de longe nos cobre o corpo e nos esmaga. e o ar falha-nos. x viveu assim em permanência durante demasiado tempo. depois adormeceu. mas agora está a ressurgir tudo de novo. e de forma avassaladora. x sabe que tem uma porta aberta para um mundo fora de cá. mas evita cruza-la. do outro lado é tudo demasiado. mas x sabe que quando os sentidos se misturam, quando o corpo parece pequeno para tudo o que nos vem, quando os olhos se perdem num horizonte que não é este, quando a mente fica frenética enquanto a boca se fecha, quando o peito parece explodir... é porque chegou a hora de enfrentar, de novo, esse sítio. talvez x consiga compreende-lo agora um pouco mais.
12.1.18
Sigur Rós - Á
quando x se sente em nó por dentro, volta aqui. e ali mais ao menos a partir do terceiro minuto, o peso que, de quando em vez, a consome por dentro, começa a desenlaçar-se. os olhos abrem como que estivessem a ver cores pela primeira vez. o rosto ilumina-se. os braços parecem abrir-se em forma de asas. e x resgata-se das trevas onde amiúde cai. quando acaba, x brilha. e mal consegue conter uma espécie de riso infantil que lhe invade a alma. a ouvir isto, x volta à casa de onde nunca quis sair.
5.1.18
x entra todos os dias na sala que partilhou durante anos com a amiga cuja doença levou. o nome da amiga de x continua marcado na porta. a mesa está vazia e, supõe x, assim se manterá por bastante tempo. a amiga de x desapareceu. mas os objectos, os papeis marcados com a sua caligrafia, os livros, as fotos... isso tudo, por enquanto, mantém-se neste plano físico em que estamos. a amiga de x desapareceu. para sempre. mas os dias correm iguais. e há uma estranha normalidade no ar. e essa estranha normalidade deixa x profundamente agoniada.
4.1.18
x não sabe se é só ressaca dos últimos tempos ou se é a crise da meia idade a ficar apurada. mas a verdade é que hoje acordou com a sensação que quase nada faz sentido e com vontade de mandar tudo para o caraças e mudar-se para outras paragens. x tem balançado em demasia entre a sua natureza nómada e a necessidade de paredes. as paredes têm vindo a perder importância, contudo.
3.1.18
28.12.17
27.12.17
22.12.17
Olafur Arnalds - Only the winds
x começou 2017 zangada. cansada. farta. a rebentar de tudo. tudo. quase se despediu. berrou. zangada. muito zangada. depois tirou férias.
passou dias de inverno a olhar o mar. acalmou.
preparou o seu relatório de avaliação e não se coibiu de fazer críticas que poucos ousam fazer. foi ouvida. e acabou por ser "promovida".
foi a maputo participar numa conferência internacional. reencontrou pessoas. redefiniu prioridades.
decidiu não se incomodar em demasia com coisas que não está na sua disponibilidade mudar.
partilhou casa com três pessoas diferentes.
passou dias de inverno a olhar o mar. acalmou.
preparou o seu relatório de avaliação e não se coibiu de fazer críticas que poucos ousam fazer. foi ouvida. e acabou por ser "promovida".
foi a maputo participar numa conferência internacional. reencontrou pessoas. redefiniu prioridades.
decidiu não se incomodar em demasia com coisas que não está na sua disponibilidade mudar.
partilhou casa com três pessoas diferentes.
acolheu uma pessoa nova na sua vida. essa pessoa acabou a fazer a vida de x num pequeno inferno por alguns momentos. descartou essa pessoa sem grande piedade. percebeu que há malta que é mesmo descompensada. e perigosa. pôs uma pedra em cima desse assunto e alertou toda a gente que essa pessoa não batia bem dos cornos. continuou a sua vida.
inscreveu-se na pós-graduação que há muito queria fazer. passou uns meses em corridas entre o escritório e a faculdade. teve muito pouco tempo para estudar.
perdeu saúde. viu as suas dificuldades respiratórias agravarem-se brutalmente. chegou a um ponto que já não conseguia andar, subir escadas ou mesmo falar sem ficar com falta de ar agonizante. até que um dia disse "chega". e decidiu avançar com a operação que adiava há anos. conseguiu organizar tudo em tempo record e foi operada pouco mais de um mês após ter tomado a decisão. não teve sequer muito tempo para pensar no que podia correr mal. passou uma semana em casa com a cara inchada e os olhos negros. mas recuperou.
foi indicada para um curso de liderança no magic circle em londres. fez o curso entre os melhores dos melhores do ramo. voltou a correr de londres. trabalhou que nem um burro de carga.
cumpriu um sonho de há anos e viajou pela islândia. encontrou amigos novos. viu das paisagens mais bonitas do mundo. espantou-se. andou pelas ruas coloridas de reykjavik. andou em cima de glaciares, de montanhas, vulcões, praias de areia preta e ondas revoltas, por baixo de cascatas, dentro de grutas. riu. foi feliz. saiu da islândia com muita vontade de voltar rapidamente.
voltou a portugal. fez férias nos seus sítios de sempre. apanhou sol. acampou. passou tempo com a família. mimou a sobrinha. mimou muito a sobrinha.
voltou a maputo. passou duas semanas extenuantes a trabalhar com a equipa local.
voltou. cheia de planos e com vontade de mudar o mundo. percebeu que o mundo, às vezes, custa a ser mudado.
ficou com o carro parado na auto-estrada no dia em que o carro não podia ter ficado parado na auto-estrada. passou-se. decidiu comprar um carro novo. teve dúvidas. vacilou entre comprar o carro que queria há muito e comprar uma coisa menos burguesa.
alguém lhe disse que tinha de pensar mais em si e que estava na hora de se mimar. e que se alguém merecia comprar o carro que queria era x. e x, então, percebeu que sim - nos últimos anos preocupou-se mais em dar aos outros do que realmente tratar de si. decidiu comprar o carro. comprou-o.
decidiu, também, tratar de si. passou a ser acompanhada por uma equipa médica multidisciplinar para perceber o que se passa com o seu corpo, que às vezes dá sinais estranhos. descobriu que tem a tiróide mais dilatada do que já é e que vai ter de tomar medicação para essa treta. não é grave. mas vai ser resolvido.
começou a fazer caminhada. e viu aos poucos o corpo a começar a reagir. passou a gostar de andar. e de ver a cidade com os pés.
respondeu a situações de emergência social. e ajudou com o que pode uma mãe e uma criança desamparadas.
ajudou a construir e concretizar sonhos. falta um - que só está pendente por questões que x não consegue resolver sozinha.
viu a amiga doente piorar de dia para dia. agonizou com a degradação física e mental que se revelaram irreversíveis. espera, em silêncio, o dia em que receberá a notícia que não quer receber. espera. em silêncio e com uma dor escondida.
x teve um ano difícil. mas conseguiu concretizar coisas que há muito desejava e que em tempos idos pensava ser impossíveis.
x concretizou o que estava ao seu alcance concretizar. porque há coisas que não vale a pena adiar. a vida acaba num plim. enquanto cá estamos aproveitemos aquilo que temos. e partilhemos o que seja possível partilhar com os outros.
e, entre lutas, derrotas e conquistas, chegamos quase ao fim do ano. x está menos zangada do que no início. e menos cansada. e menos desacreditada. e mais apaziguada, talvez. e, sobretudo, com a certeza que a vida corre desaustinada à nossa frente. tenhamos capacidade de a acompanhar. e de aceitar que, às vezes, não nos cabe a nós decidir o caminho.
boas festas. e sejam felizes.
21.12.17
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