9.7.18

x hoje faz anos. x está mais velha, mais cínica, mais opaca, mais oca, mais fria. x deixou há muito de confiar cegamente nas boas intenções de quem quer que seja. x percebeu tarde que o mundo é filho da puta, e que a grande maioria das pessoas que aqui andam não se movem a bondade. há muito tempo que roubaram parte da alma de x. x não a recuperou. e de dia para dia vai constatando que é uma palerma alegre movida a principios rígidos que  não viola por nada. às vezes isso traz beneficios. mas quase sempre só traz dissabores. x não se arrepende de ser assim. mas é muito mais difícil mantermo-nos em pé sendo como x é. x hoje faz anos. a idade não traz sabedoria nenhuma. traz apenas mais crivos. 

4.7.18

há muito tempo que x não fazia isto - parar o dia de trabalho para escrever.

x não tem escrito. porque não lhe apetece. porque tem pouco de novo a dizer. porque a sua vida corre numa tranquilidade quase aborrecida. porque não.

x percebeu há muito que só escreve em desespero. em aperto. em dor.

escrever é como chorar. mas sem lágrimas. embora, por vezes, as lágrimas acompanhem também a escrita.

mas hoje x cruzou-se com ontem.

e a náusea das palavras retidas avassalou x.

há gatilhos que deixam x em pranto por dentro. podem ser cheiros, palavras, imagens ou sons.

em regra são sons. ou palavras. quase sempre palavras ditas ou escritas há muito. quase sempre com raiva.

palavras que ainda hoje dizem coisas que doem.

há muito tempo que x não fazia isto - parar o dia de trabalho para escrever.

mas hoje, x cruzou-se com ontem. e acordou palavras por dentro que precisam de apanhar ar.


11.6.18

e ele chamou x. e x estendeu a mão. x não quer nada dele. mas x sabe que ele precisa de algo que x tem de sobra. esperança. resiliência. fé. e x dispôs-se a dar-lhe isso numa bandeja. sem pedir nada em troca.

6.6.18

nos últimos dias, x tem acordado com um fantasma em cima da cabeça. 

x já não lhe vê a cara, nem as formas. 

mas reconhece em tudo a sua presença. 

e, sobretudo, conhece muito bem o espaço oco e escuro que se gera entre o conforto de estar perante um semelhante e a asfixia que esse semelhante lhe causa. 

sim, x tem acordado com um fantasma em cima da cabeça.

e o asco e, sobretudo, o ódio que atravessa o tempo, são os mesmos de ontem.

x teme que o amanhã não seja diferente. 

porque há almas que se recusam a fazer tréguas. 

como se o conflito permanente fosse a sua razão de ser. e, sobretudo, de estar. 

porque a derradeira paz dá medo. 

e porque, se calhar, até as almas são covardes.

16.5.18


Jóhann Jóhannsson - Flight from the city

coisas bonitas.

19.4.18

2.16h da manhã. x chega a casa depois de um dia intenso que terminou num jantar de trabalho cheio de risos. x recuperou as ganas e a certeza que está no sítio certo.

17.4.18

hoje foi o dia em que x falou, a sala calou-se, o chefe mor suspirou de alívio e o chefe mor mor curvou-se perante x. hoje foi um dia bom. e foi o dia em que x percebeu que o seu amanhã está delineado há muito. comecou no dia em que x se dispôs a arriscar a vida. no mesmo dia em que x enterrou tudo o que tinha como certo e descobriu um enorme abismo de possibilidades. hoje foi o dia em que x percebeu que o seu futuro não é nada do que tinha antecipado. mas que passa por algo infinitamente maior. x pasma-se. mas, apesar de tudo, tenta seguir com os pés assentes no chão. x não se deslumbra mas, vendo bem, tem muitas razões para estar profundamente orgulhosa de si.

16.4.18


Epic Soul Factory - Everdream

e porque a música é o sítio onde reencontra a paz, x está desde cedo dentro deste som. 

o coração acalma. e o corpo transforma-se em milhares de arrepios prolongados.

depois, quando sente o sorriso nascer e os olhos explodir de brilho, x sabe que tudo está a ficar bem.
nas últimas horas, x foi embrulhada numa névoa que há muito já não sentia.

não é sensação nova mas causa sempre ambivalência e confusão.

é como quando temos a cabeça debaixo de água.

a sensação é de profunda liberdade, comunhão e conforto.

mas intuitivamente sabemos que temos de sair dali rapidamente sob pena de nos afogarmos.

a névoa que envolve x é como um gigantesco mar.

15.4.18


Sleeping At Last - Light

x está num momento da vida bonito. 

como se todo o percurso anterior tivesse por fim fazer com que x chegasse a este exacto sítio.

e isso é bom.

14.4.18


Ólafur Arnalds - Only the winds

x em criança era assim. vivia absorta, num mundo que não partilhava com quase ninguém. x em adulta ainda é assim. vive absorta num mundo que continua a partilhar com muito poucos.

Sigur Rós - Starálfur

o sinal estava vermelho. o trânsito estava compacto. por minutos perdi-me no silêncio e nas gentes que desciam a rua a passo lento. no meio de corpos avulsos, vi-te. davas a mão a uma criança mais ou menos da idade daquela que um dia planeamos em silêncio mas que nunca tornamos real. ias estranhamente devagar. como se a vida te pesasse. não te vi os olhos, nem os traços que cantam a alma. seguia-te nas costas como que pronta a  amparar-te a queda. ias de asas fechadas e de cabeça vergada ao chão.  depois desapareceste no escuro. então o sinal abriu. o trânsito desfez-se. e eu segui, como que obrigada pela pressa dos demais. segui. contrariada. e à procura do resto da tua imagem sem, contudo, saber se havias estado realmente ali. 

os nossos reencontros serão sempre assim - entre o real e o imaginário. 

28.3.18

aquele momento em que, passados mais de 20 anos, percebes que o teu mega crush platónico do final da adolescência é, na verdade, um sujeito completamente desinteressante.

19.3.18

x não sabe se é da idade. ou se simplesmente a vida ocorre por fases que se antagonizam a si próprias. mas, depois de um período difícil de desapego, x chegou a um momento na vida em que realiza que a razão do seu tormento durante a última década morreu. assim, plim. o que quase tirou a sanidade a x, não a não afecta mais. de maneira absolutamente nenhuma.

15.3.18

x começou a trabalhar com uma república islâmica que tem uma língua que x não domina. x tem andado numa roda viva por causa disso e daí a ausência mais prolongada do que o costume.

16.2.18

por estes dias o queres antes apreender a voar? faz 11 anos. quem diria que aguentaríamos isto tanto tempo?

5.2.18


Gregory Alan Isakov - If I go, I'm going

x nem simpatiza muito com estas coisas do country folk, mas estas primeiras linhas conquistaram x:

This house
She's holding secrets
I got my change behind the bed

In a coffee can 
I throw my nickels in
Just in case I have to leave

And I will go if you ask me to
I will stay if you dare
And if I go I'm going shameless
I'll let my hunger take me there

Roo Panes - Lullaby Love

quando x se põe à procura de música nova, às vezes, encontra coisas das quais gosta muito.
e ao fim de cinco dias começa a dar-se o milagre das drogas e x começa a sentir-se estranhamente diferente (para melhor).
quando uma pessoa considera vender o seu apartamento - que está numa zona cobiçada do centro da cidade mas  que começa a ser profundamente irritante - e comprar uma moradia rodeada de árvores e, para o efeito, pede uma avaliação e faz pesquisas de mercado sobre comissões de sociedades de mediação e afins,  uma pessoa confirma que está, definitivamente, a ficar velha. 

4.2.18

após dois meses (mais coisa menos coisa) de evoque:

- x ainda não o sente como o seu carro, mas sempre que olha para ele pensa algo como "foda-se, é lindo de morrer!".

31.1.18

x está a ser acompanhada por uma equipa médica multidisciplinar por causa de alguns sintomas estranhos que vinha sentindo há uns tempos. depois de uma bateria de exames longa, hoje, finalmente, x teve consulta para discutir os resultados. a médica pegou no relatório e começou a descrever todos os sintomas que x sente há muito tempo. sem tirar nem pôr. estava tudo ali, naqueles números que a x não diziam praticamente nada. no fim, a médica disse "ah e você tem um feitio assim meio de gajo não tem?". x desatou a rir e disse "sim, desde que me lembro de ser gente, por isso essa parte não deve ter tratamento possível!". a médica prescreveu a medicação que x tem de tomar e daqui a dois meses - deus nosso senhor assim permita - estará tudo em vias de estar resolvido. menos a parte do feitio de gajo! 

22.1.18

coisas de que x gosta tanto que até dói:


Kjartan Sveinsson - Credo

20.1.18

e chega o dia em que decides arrumar de vez histórias há muito escondidas da vista. e ao fim de dez anos vais ao sítio onde guardaste o passado, pegas nas coisas atiradas ao molho e fazes a purga final. no fim vai, quase tudo, para o lixo. e tu respiras de alívio.

17.1.18

os livros de x:


x comprou-o há anos. começou a ler, mas na altura o corpo e a mente recusaram-se a continuar. há pouco mais de 48 horas x voltou a ele. e, de um sopro, leu-o de uma ponta à outra. para grande surpresa de x, apesar da linguagem quase hermética - e intencionalmente espiralizada (não é gralha, a palavra que x quer usar é mesmo "espiralizada", de espiral!) - x reconheceu-se claramente ali. por razões (talvez) mais físicas do que mentais, rudolf steiner sempre despertou impulsos pouco simpáticos a x. curiosamente, o próprio livro explica a razão de x lhe ter tido tanta aversão até agora.