A propósito de algumas conversas e de alguns comentários e mensagens que me vão deixando por aqui, apercebi-me que desta vez não fiz qualquer referência à minha última passagem por África. Não o fiz, porque não sabia como o fazer. Foi em Outubro que voltei a pisar aquele chão que, um dia, me devolveu a vontade de ser. Como quem me vai acompanhando por aqui tão bem sabe, vivi e trabalhei cerca de um ano em Moçambique. Foi uma experiência muito desejada e que apareceu assim não sei muito bem de onde, nem porquê. No momento em que me caiu essa oportunidade no colo, nada fazia prever o rombo que a minha vida pessoal e profissional havia de levar. Foi um ano pleno de experiências, trambolhões e transformações que me deram uma nova capacidade de respirar e olhar o mundo. Aprendi a amar África. Reconheci-a dentro de mim. E tudo à volta ficou diferente. É, de facto, uma experiência indescritível viver, sentir e tocar África. Não me vou alongar muito a descrevê-la, pois é o que venho a fazer desde há bastante tempo. A verdade é que quando em Outubro voltei a Moçambique, cerca de dois anos depois de ter apanhado o avião de volta, ia com um certo receio do que ia encontrar. Lembro-me da primeira vez que senti o ar quente de Fevereiro a bater-me na cara e, sem olhar para trás, desci as escadas do avião enquanto pensava que nada ia ser igual. E que todo o meu mundo se tinha virado de pernas para o ar. Nessa altura, ia com medo de perder o conhecido, mas confiante e desejosa de explorar o que me era tão estranho e distante. Desta vez, ia com medo ao contrário. Medo de me decepcionar. Medo de sentir que o tempo que ali vivi não foi mais do que uma ilusão. Medo de olhar para trás e arrepender-me do passado. Nada disso aconteceu. Ao invés, ao pisar de novo o chão do aeroporto de Maputo, senti que voltava a casa e tudo me era extraordinariamente familiar. Ao percorrer, a pé ou de carro, as ruas cortadas a direito, ao reencontrar as pessoas e os sítios onde perdi o resto que me pertenceu um dia, ao sentir os cheiros, ao ver as cores, o mar, as flores e os sorrisos, voltei a perceber como fui feliz ali. Como me mudou por dentro e por fora. E como foram reveladores esses tempos. Voltei a passar a fronteira de Ressano Garcia, voltei à África do Sul e, desta vez, visitei o Krueger Park, voltei à Inhaca e à Praia de Santa Maria, voltei a rir com as pessoas com quem me cruzava e, por alguma razão, falava. Falei muito. Com os taxistas, os vendedores, os empregados dos cafés, as pessoas que faziam a ligação de barco entre o continente e as ilhas, os pescadores, os miúdos. Falei muito e com muita vontade de falar e de me rir com eles, a propósito das eleições que corriam na altura, a propósito do tempo, do calor e da chuva, do mar, do céu, da vida e da morte, de tudo e de nada. Fui, pela primeira vez, a Vilankulos, Magaruque. Benguerra, e Bazaruto. Vi golfinhos a nadar ao pé de mim, andei em barcos minúsculos no Índico azul turquesa, por vezes revolto, e em alguns momentos quase ameaçador. Houve momentos em que rezei e pedi a deus nosso senhor para que o barco não virasse senão ficava mesmo ali! Sobrevoei parte do país em aviõezinhos pequeninos que faziam uma grande barulheira e tremiam por todo o lado. Vi elefantes, leopardos, leões, girafas, gnus, zebras, rinocerontes, hipopótamos e uma série de outros bichos selvagens de beleza impar a viver em paz e liberdade no seu habitat. Comi o melhor caril de lulas do mundo preparado pelos nossos barqueiros em fogueiras improvisadas no areal de praias desertas. Nadei nas águas quentes e calmas que banham aquela terra onde o sol nasce ao contrário. Vi, mais uma vez, que África é parte do meu coração. E que, Moçambique em especial, moldou a minha alma e ensinou-me que a vida é bonita e que vale a pena todos os esforços para a viver ao máximo. Sem concessões, sem limites, sem filtros. Com o coração cheio e com os braços abertos em jeito de abraço ao infinito.