30.12.11


Jónsi - Go Do


we should always know that we can do anything


go do!
go do!
go do!



28.12.11

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perguntaram "podes perder tudo, aceitas o jogo?". disse que sim. despertei.

Mono - Moonlight

deixarmo-nos curar sem recurso a paliativos é assim - um processo lento e em crescendo. 2004 chegou ao fim.

27.12.11

não gosto da vertente decrépita, ausente e desumana da vida urbana. mas faz-me ainda mais confusão quem se isola em busca de um ideal de comunhão sustentável com o todo e se queixa constantemente de ser  incompreendid@. apesar de viver na cidade - e, provavelmente, assim continuar a ser durante anos - eu não gosto da vertente decrépita, ausente e desumana da vida urbana. nem do consumismo ou de qualquer variante sócio-filosófico-económica do mesmo. mas não preciso de me isolar na lousã para dizer que tenho hábitos sustentáveis, uma postura perante a vida mais responsável ou que me proponho transmitir melhores valores aos meus filhos. e não consigo evitar a permanente sensação que quem o faz por mera negação ao urbano-social é mais idiota do que os restantes. e com isto tudo estou-me bem lixando se os outros me entendem ou não - irritam-me tanto os pseudo-intelectuais como aqueles que gostam muito do verde do campo e de bichos mas não sabem estar com seres humanos. e isso não implica dar muitos abraços, dizer namasté por tudo e por nada, nem acabar em inha ou inho todas as palavras que se desdobram com a língua. e já agora, não pentear o cabelo ou usar andrajos em nada contribuí para o equilíbrio espirito-ambiental ok? bom, a menos que os andrajos sejam tecidos por vocês próprios em vez de terem estampados manhosos e etiquetas a dizer bangladesh ou cambodja! é que barato raramente quer dizer sustentável. já quanto ao cabelo  penteado, é mesmo só um cena estética com a qual sou meio paranóica.

26.12.11

o natal veio colado a coisas que me deixaram embasbacada.
alguém me disse "eu não entendo..." cortando depois a frase a meio. eu acho que o que restou por dizer foi "... se és completamente pérfida ou absolutamente ingénua." pois, eu às vezes também tenho dúvidas.

22.12.11

havia-me esquecido de como é diferente o toque de alguém que nos quer.
do sabor das festas na cabeça e dos mimos espontâneos.
e dos olhos a brilhar. havia-me esquecido dos olhos a brilhar.
o meu ano novo parece que começou. e o início só me deixou dormir uma hora. ainda não são onze e meia e por mim o dia já acabava.

21.12.11

estranhamente, ou não, e pela primeira vez na minha vida
esta recta final do ano está a ser assolada por
uma sensação permanente de despedida.
foi algo estranho quando passei o natal debaixo de um calor abrasador, na praia de santa maria, em pleno índico. mas desde então, de ano para ano, o espírito de natal vai-se esvaindo um bocadinho mais. não é que não goste da época, mas parece-me quase sempre vazia e inútil esta correria frenética. voltaria ao  natal no ambiente deserto da praia de santa maria, em pleno índico. sem prendas. sem luzes. sem quase tudo. eu tento, mas desconsigo perceber o emaranhado da civilização que não se deixa ir com o movimento das nuvens ou o vai-e-vem das ondas.

20.12.11

"If yet I have not all thy love,
Deare, I shall never have it at all (...)"

John Donne - Lovers infinitenesse


Siskiyou - Twigs and stones

eu vou ao primavera sound!


GOSTO!


Widowspeak - Harsh realm
hoje deu-me para pensar que aquela coisa dos ciclos
de 7 anos de Saturno deve ser mesmo verdade.
às vezes acho que tenho o trabalho mais esquizofrénico do mundo.

19.12.11


Mazzy Star - Fade into you

14.12.11

tenho pensado muitas vezes: "e agora, vou para onde?". assumi, por fim, o que afinal sempre soube:  o "para onde ir" não me é muito; o "poder ir", esse sim, é-me tudo. e isto nem sempre é bom. consegue até ser uma bela desculpa para nunca ficar em lado nenhum. talvez por isso sinta que me amarraram os pés à terra neste sítio onde me encontro. assim como que, quase em forma de castigo, me estivessem a dizer "x  vá lá, está na hora de parar e ser como os crescidos".  mas eu desaprendi a consistência das pedras e habituei-me à volatilidade do ar. e as pedras aborrecem-me tanto agora.
fins e inícios misturam-se muitas vezes. e momentos há em que chega a ser difícil distinguir uns e outros. a imensidão do espaço vazio é semelhante.

13.12.11

talvez faça parte do luto, mas não deixa de ser ingrato chegar ao momento em que percebemos que afinal o mundo há muito deixou de ser enquanto nós havíamos afinal ficado perdidos a levitar no espaço-tempo. e não é só as horas idas serem perdidas. grave é a vida que foge enquanto esperamos o passado. mas não fora assim e nada do que é seria. não sei o que prefiro. mas sei que escolhia o mesmo caminho.

7.12.11

os caminhos até podem ser vários, as distâncias maiores ou menores e as formas de expressar os sentidos absolutamente díspares mas, em chegando lá as conclusões são as mesmas: tudo é imenso, o limite perde-se no horizonte e as correntes de ar entram-nos no corpo e quase o desmontam.  e assim é chegar à casa onde as paredes são transparentes ao invés de nos apartarem do resto. há quem desista antes de lá chegar, contudo. é uma pena.

6.12.11

pensamento a reter:
"não voltar a fazer tarte de requeijão senão o médico parte-me a cara".
ontem adormeci extraordinariamente cedo. hoje quando acordei o dia pareceu-me particularmente bonito. e, ao contrário do costume, a primeira coisa que fiz foi ligar a música. precisava de sons bonitos pela manhã. normalmente só preciso deles à noitinha. desde ontem que a vida me parece ter invertido o sentido. não sei bem o que isto quer dizer. mas é isto mesmo que me parece. se está tudo bem? talvez nunca nada tenha estado melhor.

3.12.11


Hammock - You lost the starlight in your eyes
(do album "Chasing after shadows ... living with the ghosts" - 2010)

gosto. gosto muito. gosto de tudo.
até dos nomes dos álbuns e dos temas.
gosto. gosto muito. gosto desde aqui até sei lá onde.

2.12.11


há pessoas que são más. há pessoas que têm cara de más. 

em regra, as pessoas que têm cara de más são, de facto, más.
o mundo é incrivelmente irónico. pronto, é isto.
julgava eu que ia ser uma sexta-feira dormente pós-feriado. mas fiquei sozinha a tomar conta de tudo, e quando estou sozinha a tomar conta de tudo, todos os malucos espalhados pelo mundo se lembram de me vir chatear. email para cá, email para lá, resposta a este, resposta aqueloutro, distribuir trabalho entre continentes, ai uma urgência, ai que é para hoje, ai que sei lá mais o quê... e no meio disto descubro por portas travessas que sou plagiada! na verdade nunca tinha pensado nisso (jamais me ocorreria que alguém fizesse suas palavras que me sairam ao molho), mas confesso que a sensação de assalto é violentíssima.

1.12.11

este blog acompanhou-me nos últimos anos de uma forma que eu nunca esperaria quando o criei. eu acredito na partilha. por isso, vou partir este blog e dividir com todos que quiserem. podem ser palavras, imagens, sons, ideias, cores, ou outra coisa qualquer que faz parte do meu mundo, em forma de postal ou outra coisa qualquer que me pareça adequada a cada um.

quem quiser um bocadinho do queres antes aprender a voar ? pode deixar uma qualquer morada, com ou sem nome, na caixa de correio deskeparece@gmail.com até ao dia 5 de Dezembro. depois os correios farão o resto esperemos até ao dia de natal.
não sei escrever com a razão. 

palavras pensadas parecem-me demasiado confusas - e perco-lhes o sentido. 

ou ocas - e perco-lhes a vontade.
fui uma criança introspectiva e demasiado séria, cresci, aprendi sem esforço, tornei-me preguiçosa, fiz um intercâmbio na alemanha, entediei-me na escola, aprendi alemão, entrei para a faculdade,  fui dirigente de uma associação de estudantes, cansei-me da associação de estudantes, trabalhei num centro comercial, e num infantário, e em quase todos os bairros sociais de lisboa, passei dias a contar trocos, trabalhei no freeshop do aeroporto, fiz inquéritos sobre salsichas, congelados e comboios da cp, cai ao tejo e fui salva pelos bombeiros, lavei pratos num restaurante, ganhei uma bolsa de verão, vivi um mês e meio na dinamarca, fiz um curso de dinamarquês,  atravessei parte do mar do norte e do báltico num navio, sonhei ser tradutora, assistente humanitária, repórter de guerra, acabei a faculdade, fui entrevistadora do ine, fiz o estágio contrariada, fui co-autora de um dos guias de restaurantes da repsol, redigi roteiros para duas regiões de turismo, escrevi crónicas para um jornal, fui crítica gastronómica, dei uma carga de porrada a uma idiota membro de um gang no bairro alto enquanto o resto do gang assistia, tive um trabalho que começou por ser giro e acabou num pesadelo, torci o braço a um assaltante e apontei-lhe a seringa ao olho, tive acessos de raiva, e de indignação, e de tédio, fui feliz, fui infeliz, fugi com uma mochila e pouco mais para maputo só com um bilhete sem volta e meia dúzia de euros no bolso, quase fiquei louca, se calhar fiquei mesmo louca e ainda não passou, fui  residente oficial em moçambique, atravessei a swazilandia, conheci a áfrica do sul, vi um diamante, não compreendi o delírio com os diamantes -  são pedras, ponto - molhei os pés no índico, aprendi a gostar de praia, tornei-me livre, voltei a casa, arranjei um trabalho giro mas demasiado sério, comecei tudo do zero, molhei os pés no adriático e no mediterrâneo, atravessei e a bósnia e a sérvia de carro, fui investigada pela brigada anti-terrorista, afinal a brigada anti-terrorista enganou-se, espetei com um saco de compras na cabeça de um rapaz que me queria roubar, passei três semanas a atravessar a índia, apanhei um susto, levantei-me, reaprendi a andar, voltei a ter vontade de ser feliz, trabalhei, trabalhei, trabalhei... e hoje ouvi palavras como inteligência, qualidade e bom senso. até aqui parece que correu tudo bem. mas ainda assim às vezes penso como raio cheguei cá se não era aqui que pensava vir. novembro costuma mudar-me a vida. este que agora acaba talvez também a mude. mas também me deixou com mais dúvidas. ainda assim vou festejar. acho que ainda tenho uma garrafa de Pias Reserva. é muito bom e está a um preço decente no pingo doce.

30.11.11



intercalados. como convém.
nunca perceberei aqueles se trocam por dentro com a mesma facilidade que se trocam por fora. ser-me-á sempre mais fácil perceber aqueles que o desconseguem. mas, em certa medida, invejo os primeiros.

29.11.11

é irónico. quando um lado se desfaz em justificações desnecessárias (ou até, porque não, dissimuladas) o outro impõe-se com a sua razão ferida dizendo "estás a ver, erraste agora aguenta". por seu turno, quando as justificações desnecessárias (ou até, porque não, dissimuladas) se calam de um lado, o outro que antes se impunha, cai por terra de joelhos e vê que também errou e que tudo o que continua a fazer é aguentar mesmo que com gargalhadas (ainda que quase sempre tristes). o apontar de erros não favorece o equilíbrio promovendo antes uma permanente medição de forças coroada com infindáveis inversões de papéis. e este é sempre um trajecto perdido em circulares sem saída. e o que ontem era confuso hoje é tão claro. enfim.
não depender e não esperar absolutamente nada de ninguém tem péssimas consequências: ao deixarmos de nos pôr nas mãos de outrém deixamos também de ter necessidade de confiar, o que leva a uma desaprendizagem da confiança em si mesma e faz com que, necessariamente, nos transformemos em seres cada vez mais solitários. mas receber algo de alguém quando não se espera absolutamente nada de ninguém estilhaça-nos os pés de barro. é como acordar com uma bofetada.

28.11.11

detesto o trabalho do Dalí - as formas as composições o imaginário, até as cores. e detesto, sobretudo, porque tenho a permanente sensação que tudo o que ele fez tem mais de provocação entre o vaidosa e o arrogante do que de profundidade. embora por razões diferentes, tenho com o Dalí a mesma relação de ódio visceral que tenho com o David Cronenberg. mas devo reconhecer que têm ambos uma qualidade notável - despertam em mim instintos violentíssimos. 
oh esta incrivel tendência de fuga para a frente encobrindo o que foi com mantas escuras como forma de evitar o luto e a ressaca do fim fazendo substituir a falta por risos histéricos sem senso. isso não é crescimento... é parvoíce.
há dias em que o mundo me parece um imenso emaranhado de absurdos. como hoje.
perguntaram-me "qual foi a coisa mais difícil que fizeste até hoje".

respondi "apagar um número de telefone".

25.11.11


Mauvais sang - Leos Carax

revisitei-o. e agora apetecia-me que me apetecesse correr assim. 

22.11.11


Amatorski - Same stars we shared

same stars we shared
all frozen in the sky
while dreaming the same
guilty we are
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Joanna Newson -Baby Birch

...be at peace baby, and be gone.
sonhar, em forma de video-clip, com duas personagens que detesto ao som da angel olsen parece-me, no mínimo, estranho.

20.11.11


Armistice (Couer de Pirate (Béatrice Martin) + Jay Malinowski) - Mission bells

Russian red - perfect time



Julianna Barwick - Sunlight, heaven

19.11.11

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Aesthesys - I'm free, that's why I'm lost

16.11.11

o ritmo que se me impôs é meio alucinado. não tenho tempo, não tenho tempo, não tenho tempo. talvez seja a frase que mais vou dizendo. não tenho tempo. e, quando o tenho, falta-me a vontade de saber como anda do mundo. a crise vai, por enquanto, passando-me de esguelha. sou uma privilegiada, portanto. privilegiada por ter trabalho que só cresce, cresce, cresce e que não me deixa espaço para ter uma vida como a vida das pessoas normais. mas hoje paguei o iva... e quando vi no recibo o montante do "valor a pagar" apeteceu-me dizer "foda-se lá a crise, e o país, e o governo e o raio que os parta a todos!". é o que me acontece aos dias 15 a cada três meses.
isto é tudo muito giro ser independente e tal... mas foda-se que também cansa fazer tudo sozinha!

15.11.11


Badlands - Terrence Malick (1978)

pouco mais de 20 segundos onde cabe tudo.

14.11.11

eu sei que isto até pode chocar meio mundo,
mas ele há dias que os radiohead me aborrecem como o raio que os parta.
eu devia estar de férias. pois devia. mas não estou.

8.11.11

aborrecem-me meias-palavras, meios-sentidos, meias-verdades, meios-sins, meios-nãos, meias-vontades, meios-caminhos, meias-pessoas... aborrecem-me as coisas a meio. e aborrece-me, sobretudo, que se viva em metades. ou então pela metade.

7.11.11

o absurdo revela-se. e o que antes era náusea, hoje é vazio. curiosas estas mudanças. pedem-se tanto e, quando chegam, estranham-se. tenho a cabeça cheia de nada. não sei o que prefiro: se a avalanche anterior se este vazio desconcertante.

4.11.11

deve ser do fim do verão. não gosto do outono. é triste. mas gosto do inverno. e do frio e de mantas e cobertores e chá quente e de bolo de chocolate e do natal e de cachecóis. mas do outono não gosto. é estação de morte. de fim. mas dizia eu que deve ser do fim do verão - o andar meio angustiada. mas também é cíclico. embora agora vá passando mais depressa também. a idade vai-nos ensinando a recuperar o fôlego com menores danos. de qualquer forma uma coisa é certa - estou cada vez mais intolerante a alguns alguéns. também deve ser da idade. a verdade é que detesto gente má. e vampiresca. é, portanto, natural que a distância entre mim e o mundo de terra se vá alargando. mas eu nunca disse que isso é bom. não é. eu às vezes gostava de ser cínica.  ou maldizente. teria, com certeza, muito mais amigos. 

2.11.11

"you do know for yourself. and what you know is valid."



gosto do david lynch. mais do que dos filmes do david lynch. mas também gosto dos filmes do david lynch. (mesmo quando não gosto assim tanto.) david lynch tem este dom - fazer-me gostar de algo que normalmente odiaria, sem que isso me pareça demasiado estranho. david lynch dá-me liberdade de ver o que eu quiser ver nos filmes dele. sem dizer "estás errada, estás errada". e isso já é meio caminho para eu gostar dele. e dos filmes dele. (mesmo quando não gosto assim tanto.) e david lynch não me faz bocejar. e isso é raro. e deve ser sobretudo por isso que gosto dos filmes de david lynch. (mesmo quando não gosto assim tanto.) e isto ocorreu-me porque revi o eraserhead - que continua a incomodar-me como da primeira vez. vejo naquele ser de cabelos em pé a personificação de todas as frustações terrenas, vivendo algures entre o céu e o inferno. quase sempre no inferno, contudo. ou na apatia, o que talvez seja pior. assim sendo, o mundo que david lynch transpõe para a tela é bem menos abstracto do que à primeira vista parece. talvez seja exactamente isso que gosto no david lynch - a omnipresente capacidade de abstractizar o concreto. e talvez seja também exactamente isso que não gosto no david lynch - a omnipresente tendência de abstractizar o concreto. também gosto que haja uma moral sempre presente. mesmo quando tudo parece imoral ou amoral. gosto destas aparentes contradições. afinal de contas, nós somos mesmo assim - multipolares. quem não assume essa multipolaridade tem certamente uma vida mais simples. contudo, sem dúvida nenhuma, mais pobre. não, isto não é um post sobre cinema. é sobre a natureza humana.

1.11.11


Miranda Sex Garden - Play

o lugar é mais ou menos assim. e volto tantas vezes.
por muito que tentemos desconstruir, o que foi e o que é terão sempre de ficar arrumados em cantos opostos de nós. e momentos haverá em que apetece atirar ambos fora. e este é o dilema de quem vive distraído com o que pode vir a ser. o mundo do possível engole-nos.

31.10.11

não me chames. nem me penses.

lembra-te - eu morri às tuas mãos.
tenho esta tendência para fugir das coisas que cristalizam. do que me prende. do que já vi. mas à medida que avanço percebo que o que se vê não se distingue assim tanto entre pontos. e isso tira-me a razão para ir sem que me dê mais vontade de ficar. eu sei. a culpa é minha. mas eu nunca disse que não era. e a única certeza que tenho é que me partilho com uma montanha de dúvidas.
vim a reconhecer que nunca havia percebido muito bem quando te ouvia coisas como "não sinto a realidade" ou "fiquei sem referências de espaço e tempo". talvez até desdenhasse tudo o que ouvia. com aquele meu ar de enfado de quem pensava tudo saber. talvez até adoptasse uma postura paternalista. até eu própria ter entrado nesse mundo para onde fui empurrada. onde a realidade passa a não ser (ou a ser em várias frentes). e o espaço e o tempo se misturam até nos desorientar os sentidos. e sabes, às vezes faço de conta, mas ainda não saí de lá. desse mundo que é sem ser. ou que não parece ser, ainda que seja mais que qualquer outro. contudo, em esforço, vou mantendo os pés assentes. mas é difícil. e é sobretudo difícil fazer perceber a quem não saí do espaço da razão que o mundo além é tão vivo quanto aquém. e ainda assim, às vezes, gostava de ser só aqui. a dispersão por dentro consome. por isso hoje percebo-te a necessidade de agarrar a matéria. mas eu não consigo ainda fazê-lo. não tenho suficientes razões para isso. vagueio, portanto, no lado nenhum.

30.10.11

talvez seja cíclico. mesmo sem que queiramos que o seja. talvez seja coincidente. à distância. e talvez o que eu sinto continue a ser o que tu sentes. por vezes. talvez nos encontremos por aí onde mais ninguém nos toca. ou talvez seja só uma espécie de sonho que nos deixa à deriva sem saber por onde. talvez seja isto o que alguns chamam de saudade. mas há dias assim. em que nos cruzamos algures. hoje não fica raiva. talvez só um pouco de mágoa. e vontade de chegar perto. e falar sem palavras. falta-me isso sabes. é estranho não o conseguir fazer com os demais. era tão fácil antes. mas se formos bem a ver, era fácil só por seres em mim. talvez essa seja a nossa lição - que o mundo é enorme cabendo-nos na mão. e o que vem construído de trás talvez não precise de mais. talvez nos faltasse ar novo apenas. e talvez o apenas tivesse sido o caminho certo. mas ainda assim, ainda assim... hoje voltamo-nos. e eu sei que também sabes.


lembro-me de isto começar a tocar. e do silêncio que se fez. aquele desconcertante silêncio. e de um abraço. um abraço inesperado. e de uma voz ao ouvido que disse "é tão triste". lembro-me que sorri. para travar o nó que se criou. e talvez para disfarçar o que sabia que era mas não queria que fosse.uma despedida.

25.10.11

não sinto nada.
absolutamente nada.
por isso, não tenho nada para dizer.
reinvente-se o corpo.
e os lugares onde os passos caminham.

as palavras. as palavras. faltam-me as palavras ao monte.
fugiram.

também tenho falta do inverno.
e de cheiro a bolo saído do forno.
mas não me apetece fazer bolos.
nem tenho vontade de guardar o biquini.


24.10.11

o nós não é mais que um grupo, maior ou menor, de egos encostados. devíamos conhecer (e assumir, e aceitar) melhor os eus. talvez assim não houvesse tantos nós falhados. mas mete medo olhar o espelho. e é sempre mais fácil apontar o dedo com vozes trémulas. por isso, o nós que falha é, quase sempre, um grupo, maior ou menor, de eus, mais ou menos, covardes! mas hoje estou azeda, e amanhã o mundo pode parecer-me mais sério. ou não.

23.10.11

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Linda Martini - Adeus tristeza
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vinte e dois de outubro de dois mil e onze, algures perto da ericeira
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Rodrigo Leão - Vida tão estranha

21.10.11

e é tão engraçado perceber que, enfim, se não sente nada. e é tão engraçado perceber que apesar de, enfim, se não sentir nada, o ter-se sentido tudo em um qualquer momento nos abriu uma porta qualquer por onde entram coisas que não sabíamos antes. e é tão engraçado perceber que é exactamente esse processo que nos torna mais pessoas - apesar de se não sentir nada em um qualquer momento do caminho. porque não sentir nada, tendo-se já sentido tudo, é o ponto de partida para se reconhecer outros sentires prestes a explodir-nos na cara. e isso é engraçado. às vezes também mete medo. mas é um daqueles medos bons.


está tudo bem. está tudo muito bem.

20.10.11

há coisas que só nos abandonam se as deixarmos ficar. parece um contra-senso. mas não é. a fuga ou a expulsão não resolvem. há coisas que têm de ser gastas. quando se gastam não há lugar a lamentos. ou desculpas. segue-se sem contemplações à rectaguarda. mas, em não se gastando, os "ses" impedem os passos. e a cura. temos sempre demasiados "ses". quase todos resultantes do medo - "e não sendo assim, como é que vai ser". coragem é o que nos falta quase sempre. e coragem não é fugir. nem expulsar. é saber quando chega o fim. assumi-lo. e começar tudo de novo com os pés assentes em tudo o que é velho. trágico é que, quase sempre, o movimento não tem só um sentido. e nem sempre os vários sentidos possíveis são compatíveis. e é exactamente aqui que se revela o egoísmo. ou a condescendência. ou a autocomiseração. tudo pecados capitais. o inferno deve ser imenso, portanto. e começa aqui, quase sempre.

19.10.11

às vezes sai-me pela boca. ou porque ainda me sobra. ou porque já não tem sítio. tenho dúvidas.
o que é que quero? foda-se! sei lá o que é que quero.

olha, quero que não me chateies. pode ser?

Les mystéres des voix Bulgares - Polegnala e Todora

nesta altura, o bairro alto era a minha segunda casa, usava doc martens roxas, misturadas com vestidos curtos, meias de ligas e/ou collants meio estranhos. fiz o meu primeiro piercing. tive o cabelo pintado de verde. e um delírio que durou uns meses com um pseudo-namorado punk à conta do qual me ia afogando no tejo. mas passava muito do meu tempo a ouvir isto. e lorena mackennit. e wim mertens. enquanto estudava ciência política, as ordenações afonsinas, o estado de necessidade e a acção directa. nunca fui muito linear, de facto.

18.10.11

"como está o meu ser plural favorito?". apesar de tudo, ele que partilhou tão pouco tempo da minha vida conhece-me tão bem. e foi assim que começou a minha manhã. suponho que se trate de uma tentativa enviesada de equilibrar as coisas - hoje estou com mais aversão a gente do que o costume. preciso de campo. de ter os pés descalços na terra. e de sons descivilizados. preciso de sol nas palmas das mãos. e de um bloco de papel em branco. tenho a cabeça à roda e o estômago em forma de convulsões. preciso de silêncio. preciso de silêncio. sim, sou plural. e às vezes não gosto de nada. nem de ninguém. mas há dias que aparecem assim tentativas enviesadas de equilibrar as coisas. e pessoas de quem gosto muito relembram-me que não vagueio só no mundo.
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The most radical revolutionary will become a conservative the day after the revolution

Hannah Arendt

e é por isto que, apesar do aspecto romântico da coisa, não tenho grande fé em revoluções. na evolução sim, deposito toda a esperança. mas isso é outra coisa - é mais difícil e mais exigente. exige responsabilidade, integridade, transparência, respeito e ética. dito isto, tirando algumas palavras de ordem absurdas, alguns cartazes tontos e algumas reivindicações e/ou queixas ridículas, no dia 15 de outubro vi essencialmente diferentes sectores da sociedade civil unidos com um objectivo comum - a demonstrar os seus receios e, timidamente, a exercer o seu poder.

e vi muita gente descomprometida. à esquerda. e à direita. talvez estejamos no bom caminho. mas a corrida ainda mal começou. e todos deveríamos parar e dizer em conjunto - falhamos redondamente no nosso papel de cuidar de nós próprios, do país e do mundo. portanto, que não se faça a revolução. que se evolua. é esse o caminho. no entanto, temos de ser claros a perceber que, de uma forma ou de outra, o caminho vai ser penoso - desde há muito que nada está verdadeiramente na nossa disponibilidade. é que a mão invisível existe mesmo. e é filha da puta. é ela que tem de ser amputada.

15.10.11


Jay Malinowski (& Coeur de pirate) - Life is a gun

é uma forma de pôr as coisas. e hoje até me parece correcta.

14.10.11

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Parachutes - Your stories

but I recovered the half you left for me

13.10.11

não nos distinguindo sobremaneira no essencial, é curioso perceber como somos todos tão diferentes na reacção ao mesmo. e como, quase sempre, sobrevalorizamos as razões. ou a falta delas.


ocorreu-me, entretanto, que talvez sejam os excessos que dão maior sensação de sermos iguais aos (ou, de certa maneira, melhor aceites pelos) demais. a placidez é confundida em demasia com apatia. ou então frieza. a assertividade, com arrogância. ou então frieza. a intransigência, com teimosia. ou então frieza. o dizer "não", "basta", "fim", com insensibilidade. frieza, portanto.


simplificando, são os excessos, as lágrimas berradas ou as justificações esticadas ao limite na tentativa de nos perdoarmos a nós próprios que nos aproximam dos quase todos. ainda que essa proximidade seja, quase sempre, oca. e falsa. e estúpida, até. sobretudo se os excessos, as lágrimas berradas ou as justificações esticadas ao limite tiverem público. esse mesmo público que se deleita quase sempre com os excessos alheios.


eu assumo com as letras todas: no processo de decisão sou assertiva, intransigente e, sempre que necessário, digo "não", "basta" e "fim" sem quaisquer remorsos e, quase sempre, com placidez. nos padrões mais ou menos convencionais devo ser fria, portanto. ah, e não gosto de público. os meus excessos são sempre privados.

12.10.11

tudo começa com passos em direcção ao abismo. e uma frase passa a ser constante: "eu não sei mas sei". descobrimos, então, que o abismo somos nós. desmontar o paradoxo "eu não sei mas sei" passa, depois, a ser um modo de vida. e, ainda que (com esforço) guardemos a sanidade, eventualmente percebemos que o caminho que guarda a história nos ensina que há coisas que se sabem só porque sim. e alguns porquês passam a ser desimportantes.

11.10.11

deparei-me com coisas de há que tempos e... oh ingenuidade trágica e agridoce! podia levar uma vida inteira a tentar, mas jamais conseguirei explicar a pele que hoje ri. e olhando para trás não me reconheço. nem a quase nenhum dos demais que eram. e não é esquecimento. é evolução.

10.10.11

é um espectáculo ignóbil. o cair das máscaras. e contudo agrada-me que se revelem as sombras negras. consequência da intensidade da luz. e quem não sente deus devia fazer um esforço para sentir. e, oh... não! ele não tem barbas brancas. nem é diferente de ti ou de mim. mas tem voz. e disse-me "age em consciência, não prejudiques deliberadamente ninguém, vive e sente em verdade e serás livre". e assim é. e quem não acredita em anjos da guarda devia passar a acreditar. os meus seguram-me todos os dias. são enormes. imensos. e dão-me beijos na testa. mas sabes (?) viver na sombra é mais fácil. não se lhes distinguem os erros. ah... e se quiseres sair daí, prepara-te para ficar sem roupa. e com um espelho como teu melhor amigo. e boa sorte.

Bon Iver - I can't make you love me

...mas o que me revolve mais por dentro é essa tendência para a condescendência. o paternalismo. o tratarem-nos como idiotas. "tu não percebes! tu não percebes! tu não percebes!" tudo o resto é difícil. as vozes. a falta. a desistência. mas ultrapassa-se. e quando se está do lado de lá, erguemo-nos mais fortes. mas a condescendência. o paternalismo. o tratarem-nos como idiotas... isso eu não suporto. nem perdoo.

9.10.11


não é um bailado bonito. é antes uma espécie de exercício contorcionista dos nossos medos. a solidão. a rotina. a tristeza. a violência. a submissão. a revolta. a clausura. a solidão outra vez. e outra. e outra. e outra. o lixo emocional acumulado. o que está a mais. e o que temos a menos. a solidão novamente. a loucura. a desrazão. o hábito doente. o caos. e a ordem pontual forçada. a tentativa de reinvenção. nós. e um espelho em palco. PETS é mais ou menos isto. ao fim de 10 minutos tinha os olhos borratados. no final fiquei quieta. nem consegui aplaudir à primeira. depois de uns minutos sentada, saí em silêncio. não é um bailado bonito. é antes incómodo. porque em algum momento todos nos podemos rever algures no palco. e eu revi-me em vários.

8.10.11

acordei. cancelei o dentista. liguei a música. e pulei na cama. agora uma torrada e café na varanda. pegar num livro. e esperar pela noite. hoje ela volta-me. no teatro camões. há razões para não estar feliz?


Efterklang - Cutting ice to snow

7.10.11

oh... culpas, culpas! é tão fácil distribuí-las. difícil é assumir as nossas. e apreender com erros. e, oh... são quase sempre tantos.

6.10.11

voltei a ver através. e a ter bolas de fogo nas mãos. também tenho um sorriso estúpido na cara. causas-consequências, suponho.
paramos de escrever sobre a perda quando nos cruzamos com o antes que nos envia palavras mudas como "puta". e então percebemos que afinal não perdemos. ganhamo-nos.
detesto aquela pergunta: "então, está tudo bem?". mas detesto ainda mais quando me respondem: "vai-se indo!". é que ir-se indo é tão circular que não leva a lado nenhum.

4.10.11

é difícil ultrapassar. fazer as pazes. colar o coração. o corpo. a alma. é difícil compreender. é difícil aceitar. ver a magia transformar-se em terror. e é sobretudo difícil dizer adeus. diz-se quase sempre com raiva. e sem verdade. e sempre com lâminas a cortar-nos por dentro. o que é não precisa de razões. e o que deixa de ser também não. talvez seja isso que precisamos de aprender a aceitar. talvez seja isso o que se chama crescer. é difícil. mas vai-se tornando mais fácil. e não é o tempo que cura. (até pode haver remendos. mas não há cura para corações partidos.) é antes a alma que dilata de modo a caber mais lá dentro. ao explodir tornámo-nos imensos. e isso dói. mas quem já sentiu um coração desfazer-se não vai querer menos do que outra possibilidade de ele se vir a estilhaçar. menos é pouco. a paz é arrebatada. se assim não for chama-se sono.

3.10.11

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"listen; there's a hell of a good universe next door: let's go."
ee cummings

X hoje tem o coração aos pulos. X não sabe porque é que hoje tem o coração aos pulos. X não gosta de ter o coração aos pulos sem saber porque é que tem o coração aos pulos. X quer que os pulos do coração parem.
é uma coisa que me intriga, e à qual volto com insistência: onde devem ficar os outros no nosso processo de escolha? como lidar com os rebuliços que causamos sem que queiramos? será seguir o caminho que pensamos ser o nosso apenas um acto egoísta? e se errarmos? e se errarmos? e como explicar a quem fica para trás? devemos desculpas? ou sou só estúpida em preocupar-me com isto? então e se for ao contrário? foda-se... às vezes somos bárbaros! e isso, é sempre mau?
tenho pena. não sei é bem de quê. mas tenho pena. se calhar tenho é pena de ter pena. são penas a mais.

2.10.11

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"We are one, after all, you and I, together we suffer, together exist and forever will recreate each other."

Pierre Teillard de Chardin
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"sex is often overrated"

30.9.11

(coisas que ocorrem a X à hora de almoço: X não é dada a depressões nem tem problemas de auto-estima. X gosta do que faz e não tem problemas com chefes ou colegas de trabalho. X não tem particular aversão por segundas-feiras, nem especial euforia com sextas. X não é dada a doenças e só faltou uma vez ao trabalho por causa de um ataque de rinite fulminante (mas isso foi antes de descobrir os comprimidos maravilha). X não tem pachorra para intriguisses nem para o mal-dizer. mas X também não tem qualquer problema em dizer exactamente o que pensa a quem quer que seja. X não se preocupa em ser politicamente correcta e não tem medo de consequências que daí advenham. X não faz fretes e não tem problemas em dizer "cala-te estás a aborrecer-me de morte". X quase não vê televisão e não conhece quase nenhumas das caras que aparecem nas revistas. por isso, X, quase sempre, sente-se muito deslocada nas conversas e, às vezes, chega a pensar que não deve ser muito normal.)
hoje fui espreitar o ano de 2008. encontrei este texto que foi escrito no meu dia de anos. revivi todos os segundos que passaram por mim enquanto o escrevia. e percebi que apesar de ter muitas vezes vontade de acabar com este blog, provavelmente, nunca o conseguirei fazer.

Um dia acordamos e tudo desapareceu. Nada é. Nada está. Vácuo. Só. As vozes misturam-se num interminável curso de sons imperceptíveis. Fingimos perceber. Fingimos estar. E fingimos ser o que alguém espera que sejamos, sem saber exactamente o que é isso, pois não sabemos nem quem somos, nem quem são os outros. Tentamos agarrar-nos a coisas que nos pareçam ligeiramente familiares. Tentamos olhar-nos no espelho e encontrar uma réstia de semelhança com a ideia que faziamos de nós. Mas, nada. Nada. Nada. Pedimos em silêncio que nos puxem de volta. (Parece sempre mais fácil voltar ao que se sabe do que enfrentar o que se não conhece.) Mas o abismo acena-nos promessas de tudo. E vamos. Brincam-nos com a cabeça depois. Arrancam-na. Fazem malabarismos perigosos. Voltam a pô-la no sítio por breves instantes. Mas é só para termos a certeza que nada é do que já foi. Voltam a arranca-la. E isto acontece sempre, sempre, sempre. Até percebermos que não somos nós que controlamos o movimento de vai e vem. Depois perdemos tudo. Mesmo o que antes parecia enterrado até ao centro da terra. Num plim tudo deixa de ser. Medo depois. Medo. Muito medo. Quem és tu que estás ai desse lado do espelho? Onde está o eu que tu roubaste? Confusão. Sons. Luzes. Risos. Lágrimas. Muito de tudo. E tudo muito. E, ao mesmo tempo, um vazio. Cheio. Um vazio cheio. É isso. Um vazio cheio. Descontrole. Alucinação. A certeza que a vida como era nos foge. Levam-na. Roubam-na. Mas enfim passamos a sentir tudo. Como antes não ousavamos sequer pensar que fosse possivel. Sentimos tudo. Bom e mau. E tudo lá, naquele sítio que dói e que faz rir. As palavras então saem disparadas por armas de arremesso perdidas algures no meio de nós. Ou então, ficam presas. E os lábios quietos. Xiuuu. Um dia, morremo-nos. Desistimos da guerra. Aceitamos que acabará ali. E que nada o pode impedir. Pomo-nos nas mãos de quem nos tolhe os movimentos. Dizemos que estamos à disposição. "Façam o quiserem! Eu não sou, não sei, não mando, não nada..." e pronto, morremos. E nesse exacto momento somos invadidos por um sopro quente de vida. Que nos entra pelos bocadinhos todos do corpo. Sentimo-nos levitar. Sim, sentimo-nos levitar. Sentimos os olhos encher-se de luz. Ficar transparentes. Mudar de cor. Passamos a ver à frente e atrás. Por fora e por dentro. Pelas margens e através. O coração bate. O peito enche-se. As lágrimas, essas, continuam a despedir-se de ontem. Misturam-se com o riso pela descoberta do plano onde o espaço e o tempo se misturam numa esquizofrenia de sentidos. Á nossa volta, luzes dançam. Vozes cantam. E dão-nos as boas vindas à terra de ninguém e de todos. Depois, renascemo-nos. Sem quase nada a ocupar-nos por dentro. Prontos a recomeçar. Mas agora num patamar acima. Crescemos um bocadinho mais em direcção a casa. Sabemo-nos no sítio certo. Mas ainda assim, às vezes temos saudades. No fim, o terror acaba. O dia volta. E passamos a perceber que entre a loucura e a iluminação a diferença é muito ténue.

9 de Julho de 2008

29.9.11

"(...) Com o mesmo entusiasmo, com a mesma certeza, com a mesma confiança, engajemo-nos ainda mais resolutamente no combate pela paz, pelo progresso, pelo bem-estar, pelo socialismo, pela felicidade.


A luta continua!

A Revolução Vencerá!

O Socialismo Triunfará!"


São as pequenas delícias de trabalhar com Repúblicas que já foram Populares - isto é ipsis verbis o final de documento que estou a consultar para um trabalho qualquer.

Mono - Pure as snow (trails of the winter storm)

28.9.11

acordei com vontades canibais. apetecia-me comer-te aos pedaços. lembrei-me então que não restou nenhum. lambi os cantos da boca. lavei os restos com água morna. vesti a pele dos inocentes. e saí à rua. o dia estava bonito.
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queria ser capaz de explicar como equilibrar a luz e o escuro. o céu e o inferno. o aqui e o além. não sou. mas sei que é possível. ainda que o equilíbrio seja frágil. e o processo seja lento. e a agonia seja imensa. vi-me renascer. e senti as dores do parto. a frio. a ferros. a fogo. mas valeu as penas. oh se não valeu todas as penas.

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Julianna Barwick - Flown

há calmas assim. desquietas. sê com elas. vai... entra na toca da Alice. e plim!
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"Sin is no longer your master, for you no longer live under the requirements of the law. Instead, you live under the freedom of God's grace."

The Holy Bible - Romans 6:14

27.9.11

não gosto de memórias. talvez por sempre ter tido tendência a não me conseguir desprender delas. por isso hoje não tenho nada no meu espaço com passado. hoje guardo apenas algumas coisas por dentro. e quase todas elas têm nome próprio. tudo o resto me parece acessório. na hipótese má é até incómodo. talvez por isso hoje não gosto de memórias. gosto mais do imediato. do que é. o que foi interessa-me pouco. ou quase nada. se foi e deixou de ser é porque já não importa que não seja. e se algum dia alguém quiser reconstruir a minha biografia terá dificuldade. da parte que diz quem fui há poucos registos. eu não guardo quase nenhuns. mas histórias há muitas. contudo terão de ser contadas em forma de voz de gente. daqueles cujos nomes próprios eu guardo. partilhamos algumas histórias. umas que já foram. outras que ainda são. e outras que esperam ainda para ser. mas as que já foram vão ser ainda no futuro. e as que ainda não aconteceram têm os pés no passado. são movimento. adiante e ao avesso. são ontem e hoje e amanhã. são aqui ali e além. mas isso não são memórias. são pedaços da nossa essência. de áfrica não guardo memórias. nem sequer saudade. de quem já fez parte da minha vida e já não faz não guardo memórias. nem sequer saudade. guardo isso tudo em forma de pequenos pedaços daquilo que sou hoje. sim, hoje não gosto de memórias. mas gosto de todos os pedaços que me são. e gosto de risos e abraços de gente de carne. tenho caixas por abrir. mas não me apetece. e já só me faltam queimar alguns papéis. já nada disso é meu. e tem tudo pó.

26.9.11




Joanna Newson - Does not suffice

(isto porque hoje me apetece música com sabor ao último copo antes do fim da festa mesmo antes das luzes se apagarem e ir toda a gente para casa)
"E quando tiveres tempo e vontade lê isto. Nem que seja uma frase de cada vez.

Esse é o caminho que tens de percorrer e que te vai tirar o que conheces e dar o que realmente precisas a seguir. Pelo meio, se te deixares de reconhecer - quer seja pelas coisas novas que sentes, pela forma diferente como vês os outros ou pelas necessidades novas que te aparecem - não te admires. É mesmo assim. Procura é interiorizar o que sentes e conhecer-te de verdade. Terás dúvidas, medos, e por vezes até podes errar no caminho, mas isso é mesmo assim. O caos, as dúvidas, o terror, o vazio, a sensação que uma bomba atómica te rebentou na cabeça e o pavor do desconhecido são elementos centrais nesse processo de crescimento. Mas esse é o caminho da paz."
"More than kisses, letters mingle souls."

John Donne


cruzei-me com esta citação no livro de cartas de Reiner Maria Rilke que estou a ler. mais do que os poemas do Rilke, gosto das cartas do Rilke. é ali que ele mostra a alma sem outro cuidado que não o de dizer o que pensa. diz-se que ele tinha imensa preocupação com a apresentação da própria carta. que reescrevia cada página quando havia gralhas. que eram imaculadas. podiam até ser, mas não é isso que me agrada nele. o que me fez apaixonar por Rilke foi a forma como ele via o mundo. e as palavras com que o descrevia. são imensas. são gigantes. são algumas vezes absurdamente simples. outras incrivelmente profundas. e Rilke via o mundo um pouco como eu. ou melhor, eu vejo o mundo um pouco como o Rilke. mas não é só por isso que eu gosto de quase tudo o que dele leio. é a intensidade das palavras que ele usa quando se dirige a alguém. mesmo que esse alguém seja, às vezes, não muito determinado. isto porque acho que muitas das cartas que ele escreveu, embora tivessem um destinário, podiam ser dirigidas a qualquer um de nós. e isto fez-me lembrar cartas e coisas que eu própria já escrevi. algumas dirigidas a pessoas concretas. outras a ninguém. e outras, se calhar, a mim própria. e sobretudo cartas e coisas que me escreveram a mim. e, por isso, confirmo a citação do John Donne - as palavras conseguem ter mais força do que os beijos. mesmo que sejam beijos muito bons. as palavras arrepiam-me. exaltam-me. tiram-me o ar. as palavras fazem-me sentir viva. ou a morrer. as palavras fazem-me rir. ou chorar. as palavras são a ligação mais real que eu tenho ao mundo. é sobretudo através delas que sinto. os beijos passam. alguns (ou quase todos) até se esquecem. mas as palavras não. essas ficam gravadas para sempre. e algumas ainda me doem. ou me fazem rir. mas sobretudo as palavras fizeram com que a minha alma se unisse a outras (poucas) almas. mesmo à distância. ou sobretudo à distância. e, para mim, não há verdade maior do que esta.
Sigur Rós - Von

eu não sabia. mas eles avisaram-me muito antes de saber que me havia de despedir. guardei-os com carinho e apertada por dentro. eu não sabia. mas o sítio onde os fechei haveria de ficar no escuro muito tempo. mas eu sabia que lhes ia voltar. há amores que não morrem nem que se queira muito. e hoje voltaram a soar em minha casa.
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Sigur Rós - Vaka


Sigur Rós - Svenf-g-englar


"without music life would be a mistake"
Nietzsche

25.9.11

"We are solitary. We may delude ourselves and act as though this were not so. That is all. But how much better it is to realize that we are so, yes, even to begin by assuming it. We shall indeed turn dizzy then; for all points upon which our eye has been accustomed to rest are taken from us, there is nothing near any more and everything far is infinitely far. A person removed from his own room, almost without preparation and transition, and set upon the height of a great mountain range, would feel something of the sort: an unparalleled insecurity, an abandonment to something inexpressible would almost annihilate him."

Reiner Maria Rilke - Letters to a young poet (no. eight)

(há uns tempos disse que achava que só havia relido 3 livros. mas a este (e a outros) volto muitas vezes. sinto-lhe todas as palavras.)
há muitas coisas de que eu não gosto. mas o que me mete mesmo nojo são escamas de peixe. odeio. para me causar mais nojo do que as escamas de peixe só mesmo gente má. ou desleal. e eu vomito mesmo se toco em escamas de peixe. por isso suponho que dá para perceber como a gente má ou desleal me revolve as entranhas.
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Warpaint - Shadows

Marissa Nadler - Leather made shoes

(não tenho palavras agora. isto ocupa-me tudo.)

24.9.11


é enternecedor. elas tinham uma mensagem colada no frigorífico que dizia "don't postpone joy". e não adiaram. e viveram felizes até ao fim. é enternecedor, repito.

23.9.11

X recebeu hoje uma mensagem de alguém de quem não tinha notícias há muito muito muito tempo. no meio da mensagem dizia algo como "descobri-te no google. já sei que és uma [profissão de X] famosa".

X estava a beber café quando recebeu essa mensagem, engasgou-se e quase se cuspia toda. a razão foi ter feito contas e ter percebido que (respira fundo X, respira fundo!) já se passaram 18 anos! é que a parte do "famosa" não é de todo verdade.
pior do que não respeitar grandemente essa coisa dos dress-codes é estar num local público com os chefes, incluindo o que dizem que é "mau", fazer um gesto assim tipo "hang loose" e deitar-lhes a língua de fora. pior ainda é ter um piercing na língua vai para sei lá quantos anos - do qual já não me lembro sequer - que quase nenhum deles conhecia. mas surpreendente, mesmo supreendente, foi ver o que dizem que é "mau" ter um ataque de riso, agarrar-me pela cintura, fazer-me dar duas piruetas e no fim pousar-me, dar-me um beijo na testa. se as pessoas fossem mais elas o mundo era tão menos aborrecido!
chegar a casa já muito noite e, no dia a seguir, sair de casa ainda muito noite tem as suas vantagens. por exemplo, (i) o trânsito é quase nenhum e (ii) conseguimos ter a paciência suficiente para ouvir o Michael Bolton na rádio pela manhã (embora ainda muito escura) e até fazemos uma versão "sing along" enquanto os semáforos não ficam verdes. sim, são 9.35 h e eu já estou nisto vai para 3 horas.

22.9.11

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a imagem não é desfocada por acaso. é assim uma espécie de alma penada que anda cá por casa. não deve ter sequer meio quilo, mas isto já está mais ou menos definido: a ala da frente da casa pertence a maria amélia; carlota joaquina domina a ala das traseiras. quando se encontram no corredor a coisa fica esquisita. mas hão de chegar a um entendimento qualquer. haja fé!

há muitos anos, quando acabei de ler "a morte em veneza", a quem me o recomendou com um efusivo "é lindo" eu respondi com um rosnar qualquer. nunca mais li nada de thomas mann. mas hoje, depois de um suspiro, agarrei "a montanha mágica". e esta é a prova que devo ser masoquista. logo tinha de escolher um que tem exactamente 832 páginas. e a primeira não promete, devo dizer.

21.9.11

hoje acordei em posição de anjo. a cama pareceu-me mais macia. e a roupa não se enrrolou no corpo. isso deve querer dizer que os pesadelos acabaram. é assim. um dia acordamos e nem reparamos que as imagens que nos ocuparam já não estão lá. foram todas devoradas pelo imenso céu lá de fora. e ele hoje não estava azul. estava assim em tons lilás. e havia daqueles confetis de festa a cair por todo o lado. suponho que seja uma forma irónica de celebrar o fim. ou a falta que essas imagens de sempre já não fazem. e isso é a mesma coisa não é? já disse que sol tem um brilho diferente? e que já não franzo a testa? talvez não. vou perdendo a memória. mas há um sítio escuro onde sei não querer ir. mas até para lá já esqueci o caminho. já disse que o céu hoje estava em tons lilás? e que havia daqueles confetis de festa a cair por todo o lado?

20.9.11

não sei bem o que me levou a isso mas hoje, enquanto tentava acordar, conclui que levamos demasiado tempo a perceber que aqueles que perdemos talvez nunca nos tenham sido. ainda que levem pedaços de nós na saída e nos deixem em ruínas algures.


e, ainda assim, não consigo decidir se olhando para trás apetece rir ou não. mas uma coisa sei - olhando para a frente o futuro é muito mais. ainda que, às vezes, olhando para o que restou sejamos tentados a pensar "que pena".


e isto apenas porque, quase paradoxalmente, aqueles que perdemos - mesmo que nunca nos tenham sido - são, quase sempre, os mesmos que nos levam a aprender a ser.


resumindo, talvez o que leva a perda a atingir proporções, por vezes, tão dramáticas sejam apenas banais dores de crescimento. mas quando é a alma a crescer dói mais. é a consciência a esticar até ao limite da sanidade. é de uma rara beleza andar sem ter sítio para pousar os pés. mas é difícil também. ouvem-se cantilenas ao longe. daquelas dos filmes de terror. que arrepiam. e sentimos sempre uma corda ao pescoço pronta a esticar ao primeiro passo em falso. embora nesse caminho os passos estejam previstos desde o início. e mesmo que não pareça, há mãos que nos agarram mesmo antes de cairmos no abismo.


e eu nunca disse que isto era simples.

16.9.11


Peter Broderick - And it's alright

12 de Novembro, Musicbox

(e eu continuo a perguntar quem no seu perfeito juízo acha que o Musicbox é um bom sítio para qualquer tipo de concerto. enfim...)
(X explica: X dorme pouco. normalmente umas 5 horas, 6 no máximo, muitas vezes só 4 ou, nos dias mesmo maus, não mais de 3. por razões profissionais, X está grande parte do dia em frente a um pc. X tem um trabalho giro. mas às vezes é meio aborrecido também. seja como for, é demasiado sério. sempre. e X precisa de coisas mais sonho, mais nuvens, mais branco. X tem muitas cabeças. todas dentro da mesma. cada uma vai exigindo o seu momento. e, por isso, X divide-se com muita frequência ao longo do dia entre coisas absolutamente díspares. quando esteve longe, X ganhou um hábito que ainda não conseguiu perder - tem de estar sempre ligada: o gmail está sempre aberto, o skype está sempre ligado, o facebook também e o blog tem sempre a página "new post" em stand by. e X nem sequer passa tempo com pessoas virtuais. nem usa o msn. nem costuma conhecer pessoas que, por qualquer razão, encontra online. nem sequer fala ao telefone sem que tenha alguma razão importante para isso. X é até algo anti-social, mas tem de estar sempre ligada. mesmo fora de casa - o telefone está (quase) sempre ligado e, por razões profissionais, está sempre sicronizado com o outlook e sempre com acesso à net (menos ao fim de semana que é quando X quase sempre o ignora.) por isso, sempre que alguma coisa a transporta para algures sabe-se lá onde, X pára. e regista. e, por isso, é que este lugar, às vezes é tão activo. ou diz coisas tão diferentes. X é muitas. pronto. às vezes, X regista só com a camara fotográfica. as imagens que capta são (quase) sempre resultado do imediato. e não pensadas. são apenas resultado de um instante qualquer. X não passa mais do que alguns minutos por semana com a camara na mão - não tem tempo para mais. nos entretantos, vai tentando ter uma vida, também. mas, às vezes, não consegue. quando tem tempo, X prefere espaços abertos. com ar, luz e sol. X ganhou uma espécie de fobia a espaços fechados. e, por isso, durante muito tempo custou-lhe entrar em salas de cinema. mas agora essa fase já está a passar. mas X gosta, sobretudo, de sítios que cheirem muito a livros. embora tenha muito pouco tempo disponível para lhes dedicar. ao fim do dia, a cama é o seu mundo. do lado direito tem os livros que se vão acumulando, do esquerdo a camara fotográfica, aos pés o mac (sempre, mas sempre, ligado - sim a bateria já pifou). X não costuma ver televisão. não lhe perguntem nada daquelas séries que toda a gente da idade de X vê. já a cama de X é uma espécie de caos. e se um livro anda perdido, o mais certo é estar escondido nos lençois. e os fones. e alguns cds também. X não consegue ouvir a música que realmente gosta sem ser sozinha. e com tudo à volta em silêncio. de preferência, com os fones postos. e deitada na cama, ou no sofá, ou no chão. X faz muitas coisas ao mesmo tempo. mas não tem tempo para tudo. e, por isso, às vezes, passa demasiado tempo longe do mundo da rua. e, às vezes, até longe dos amigos de sempre. mas eles já sabem como X é. e sabem que X volta sempre. porque na realidade nunca está longe. X está sempre ligada. e quando está em carne e osso está mesmo de verdade. X não finge. nem no blog, nem lá fora.)
(...) something within me... wants to break free... I swear, Master, to eternally adore the two goddesses; Muse and Liberty.

Carta a Théodore de Banville, maio, 1870 - Arthur Rimbaud
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tive de me organizar. em não havendo critério teve de se inventar um: física no monte da esquerda, teosofia no do meio e poesia logo à direita - bem ao alcance da mão. estou quase a chegar ao Manjit Kumar. é só despachar as últimas páginas do Michio Kaku. e começar e acabar o Paul Davies. o Rilke está a olhar de esguelha mas hoje é o Rimbaud o escolhido para partilhar comigo a cama. oh tempo, cresce!

15.9.11

há já alguns anos, X tinha uma vida diferente. em um dos episódios bonitos dessa vida, X conviveu com algumas pessoas muito interessantes. X era assim ainda pequenita e novinha e, um dia, numa missão de trabalho, viu-se dentro de um autocarro no meio dos grandes nomes do jornalismo ligado à gastronomia e à cultura nacional. X sentiu-se um micróbio. mas o chefe de X à altura, que era louco, vá-se lá saber porquê, levantou-se, abriu os braços e berrou - "descobri uma grande jornalista"- X, portanto. ora X nunca foi jornalista, mas quando era pequenina dizia que queria ser. e pronto, lá foi calhar ao meio, sem saber muito bem como. mas essa parte da história não interessa nada. o que interessa é que X nesse momento, e por acaso (e os acasos não existem, já agora, mas no momento não me ocorre melhor expressão) estava sentada mesmo ao lado de um senhor, assim já com alguma idade, que X não conhecia de lado nenhum mas com quem simpatizou desde o primeiro segundo. esse senhor, por causa das palavras do ex-chefe louco, começou a falar com X. X já não se recorda da conversa toda, mas sabe que durou a viagem inteira. e que falaram muito de cinema - X veio depois a perceber que o senhor até fazia crítica de cinema num jornal do norte, embora nunca tenha lido nada do que ele escrevia acerca do assunto. de qualquer modo, X sentiu-se meio ignorante porque de cinema não percebia assim tanto como isso, embora na altura até passasse bastante tempo no King e no Quarteto. e, palavra puxa palavra, no fim da viagem X e o senhor simpático trocaram contactos. e o senhor prometeu que escrevia. e escreveu. passados uns dias, X recebeu uma carta acompanhada de uma garrafa de vinho da Ilha do Fogo - o senhor também era crítico de vinhos. e durante algum tempo X e o senhor trocaram algumas mensagens. hoje, X voltou à caixa de correio antiga e reencontrou-as. falavam, sobretudo de filmes que ambos tinham visto - trocavam opiniões, na altura, por exemplo, sobre o Mystic River que nas palavras dele era "belo e corajoso". e falavam de escrever. X tinha descoberto a paixão pelas palavras. e como se sentia bem quando escrevia. e como não conseguia explicar essa sensação a quem não o fazia também. não se consegue explicar o porquê de escrever. ou o porquê de escrever de determinada forma. escreve-se. pronto. X e o senhor falavam muito sobre isso. e quando X teve de mudar de vida, o senhor disse-lhe assim "X faças o que fizeres, nunca páres de escrever. escreve sobre tudo e em qualquer lugar, mas escreve, escreve, escreve...". estas foram as últimas palavras que X leu do senhor. entretanto os destinos descruzaram-se. até hoje, dia em que X recordou esses tempos tão intensos. e essa amizade que durou tão pouco mas foi tão bonita. hoje, depois de reencontrar essas mensagens, X foi procurar saber o que teria acontecido ao senhor simpático que encontrou numa viagem algures no Douro. José Gomes Bandeira faleceu em 2006. era jornalista do JN mas, para além disso, era um ser humano incrível. X verteu duas lágrimas.
sinto-me no meio de um triângulo. e juro que não sei o porquê. mas sinto-me no meio de um triângulo. e eu não lhe vejo as esquinas, mas sinto-me no meio de um triângulo.
e, ainda assim, não deixa de ser irónico que desde manhã cedo X esteja dedicada a coisas que têm a ver com substâncias explosivas e radioactivas... é que X está assim desde que acordou - prestes a rebentar qualquer coisa!
e às vezes também escrevo sobre sexo. embora só muito vagamente me interesse escrever sobre sexo. concluo, portanto, que sou mais Anais Nin do que Henry Miller. (ainda bem, o Henry Miller é mau que dói.) gosto da subtileza. é isso, gosto da subtileza. ainda que esta venha enrrolada em lençois suados ou esquinas escuras. na verdade, não me interessa particularmente escrever sobre sexo. interessa-me mais o antes. ou o depois. mas, às vezes, também escrevo sobre sexo. ainda que seja mais Anais Nin do que Henry Miller.

é algo curioso ficar sem telefone, perder todos os contactos e pedir que os mandem de novo, quando acordamos pela manhã e abrimos o email, as muitas de respostas que recebemos de imediato são quase todas daquelas pessoas de mesmo muito longe. a proximidade às vezes mata. a distância por vezes conserva. mas nenhuma destas versões .
"pega em duas tripas. dá-lhes um nó. e experimenta correr descalça a seguir." com o distanciamento do hoje, posso dizer que esta foi a descrição de um sentir mais visceral, mais bonita e, também, mais cruel que me fizeram. e só me lembrei disto hoje, porque há noites com visões estranhas. mas, bom dia mundo que é e até sempre mundo que foi (embora, talvez, nunca com grande verdade).

14.9.11

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tem pose de nobre. ignora quase tudo e todos que a rodeiam. faz ar de frete se alguém a incomoda. e só fica mais ou menos empolgada quando vê latas gourmet que degusta com ares de gata fina. chama-se maria amélia, podia lá ter outro nome? sim, tem quase todos os defeitos da dona mas esta tem um nome bem mais plebeu.

13.9.11

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Some things I loved have vanished. A great many others have been given to me.

Simone de Beauvoir



"If you are only moved by colour relationships, you are missing the point. I am interested in expressing the big emotions - tragedy, ecstasy, doom"


Mark Rothko


eu tenho uma paixão desmedida pelo trabalho do Mark Rothko, pela personagem do Mark Rothko e pela profunda violência das cores do Mark Rothko. mas só trouxe este assunto agora aqui porque a experiência que eu tenho ao olhar para quase tudo o que o Mark Rothko fez é equivalente à parte minúscula que eu percebi da descrição da teoria das pontes de Einstein-Rosen.
(curiosidade: neste blog, às vezes, acontecem coisas meio estranhas. mas, ser seguido por alguém lá dos lados do oriente que está à frente de um blog ligado ao Falun Dafa (ou Falun Gong) até a X parece demasiado excêntrico. e quem não sabe o que é o Falun Dafa (e eu também não sabia) pode ver aqui. de qualquer modo, visto assim por alto, o Falun Dafa interessou a X. e X promete que vai pesquisar mais sobre o assunto. embora desconfie que a filosofia da coisa não seja muito diferente de todas as outras que X já vai reconhecendo. é que afinal de contas, todos dizem mais ou menos o mesmo. até porque o Todo é uno. digo eu.)
desde há alguns anos que X tem um ritual que cumpre religiosamente todos os dias - acorda, levanta-se, ainda com os olhos meio fechados liga o mac, vai às páginas do Expresso, TSF, Público e agora também "i". (ao Sol recusa-se pois X abomina alcoviteiras.) X não gosta particularmente de nenhum jornal português (com excepção do Económico), mas vai acompanhando - ainda que grande parte das vezes não passe do primeiro parágrafo. mas não gosta, sobretudo, de quase nenhum dos fazedores de opinião da praça quase todos comprometidos com coisas miudinhas. por isso vai também espreitar, pelo menos, o Economist, a Al Jazeera e a Foreign Policy. quase sempre depois de ler os títulos fica meio arreliada, vai direitinha tomar uma enorme chávena de café e fuma o primeiro cigarro do dia. normalmente está bem disposta. X está quase sempre bem disposta pela manhã. apesar de tudo. mas normalmente pensa, também, "foda-se que o mundo qualquer dia rebenta de vez". foi exactamente isto que aconteceu hoje. e imediatamente a seguir X pensou que se o Prozac fosse substituído por Helena Blavatsky talvez o mundo tivesse uma solução mais rápida. vá, os mais corajosos podiam aventurar-se no Rudolf Steiner. ou, quem não tiver paciência para o senhor, pelo menos podia deter-se no Krishnamurti que algures disse mais ou menos isto: "podemos ir muito longe se começarmos perto. (...) temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo." e quem não tiver paciência para nenhum dos três podia apenas plantar flores, ou observar pássaros, ou olhar nos olhos de com quem se cruza na rua. e sorrir. sobretudo para os desconhecidos.


o mundo não vai acabar. mas o calendário Maia acaba mesmo em 2012. e bem do alto da minha profunda impaciência eu digo "foda-se, já é tempo de abrir os olhos".

12.9.11

(aviso: eu disse há dias que a minha vida é bastante estúpida. por isso não têm de estranhar o que vou dizer a seguir ser dito muito fora de tempo.)


vi ontem, pela primeira vez, o Vicky Cristina Barcelona do Woody Allen. não vou dizer se gostei ou não do filme pois nem sei bem se é um filme para gostar ou não. acho que é sobretudo um filme para ver e depois ficarmos em frente ao espelho.


mas vou dizer o que me ocorreu no fim e o que disse a quem estava comigo enquanto fumava um cigarro assim meio chateada: "porra, ele diz que não há redenção. que voltaremos sempre aos nossos pecados. que não evitaremos os erros clássicos do querer demais ou do não lembrar o que se quer. parece-me uma abordagem à essência humana demasiado redutora. e sobretudo covarde. mas se calhar eu é que sou louca. de qualquer modo, a haver só duas saídas, eu sou completamente Cristina."
P1090376

The heavens are wide open! All mysteries are dead
In Man's eye, who stands, crossing his strong arms
Within the endeless splendor of nature's bounty.
He sings... and the woods with him, and the rivers
Murmur a jubilant song that rises into the light...
- It is Redemption. It is love. It is love!

Arthur Rimbaud - Credo in unam (Letters)
eu gosto de pessoas que são, ou já foram, doídas. essas são mais verdade. são mais coração. são mais sangue. são mais tudo. essas sabem que se pode morrer de amor. e eu gosto de pessoas que sabem que se pode morrer de amor. mas gosto ainda mais das que sobrevivem. essas aprendem durante o percurso em forma de calvário que por vezes a maior prova de amor é saber abrir as mãos. mesmo que fiquem sem nada. mas quem sobrevive ao nada fica preparado para tudo. quem nunca se sentiu morrer é porque nunca se soube vivo.

(e há quem diga que a dor da perda e a dor de corno são a mesma coisa. pois entre as duas eu vejo um abismo. e é por isso que apesar de gostar de pessoas que são, ou já foram, doídas, não gosto de gente ressabiada. normalmente essa gente torna-se má. e perigosa. amor e posse são palavras que só podem coexistir na mesma frase quando se negam uma à outra.)



Kristy Krueger - It hurts most of all when I'm standing still

(e isto tudo só para partilhar o que me foi mostrado por um exagerado que anda por aí)
X estava na dúvida se hoje pendia mais para o lado Bela Adormecida ou para a via Lara Croft. mas, depois de receber uma mensagem da sua junta de freguesia que dizia "vem aprender Krav Maga (sistema israelita de defesa pessoal e técnicas de combate)", X sentiu um sorrisinho luciférico desenhar-se-lhe na cara. e quase que ficou empolgada. e entretanto a dúvida dissipou-se - a parte da Bela Adormecida é mesmo só porque hoje a cafeína não está a fazer efeito.

10.9.11

tenho alguma tendência para gostar de música triste. tenho ainda mais tendência para gostar de música de inverno. mas o que realmente gosto é de música que se adequa ao meu estado de espírito a cada momento. que me parece triste quando estou triste. e que me parece cheia de tudo nos outros momentos. música de desamores também gosto. embora quase nunca a suporte. se for séria, ouvi-la quase sempre dói. se não doer não é porque não se sabe. e em sabendo, sobreviver-lhe é quase sempre difícil. ainda que no dia seguinte se acorde de novo. às vezes até a sorrir. hoje estou num dia de música de primavera com nevoeiro. talvez por isso me deu para ouvir isto.


The Stranglers - Midnight summer dream

One thing's pretty certain helped me
Make it in the night
Showed me somewhere else between wrong and right